pierre perrault: palavra e utopia

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Não é de hoje o mal-entendido entre cinema e palavra. Em muitos casos, o desencontro nasce do juízo tolo de que a literatura deve permanecer distante dos filmes. Mas palavra não é literatura. Antes de qualquer coisa, ela é som. E como diz Manoel de Oliveira, um elemento mais cinemático, ou seja, mais relacionado ao movimento, do que a imagem. Uma imagem pode ser contemplada em repouso; a palavra falada, não.

É aí que encontramos Pierre Perrault, na ideia de que não há repouso para as palavras – e que por isso mesmo elas são capazes de desarmar a linguagem. Mês passado, Porto Alegre teve a chance de conhecer (e não quis, o público não apareceu), em mostra no Santander Cultural, a obra completa deste cineasta celebrado desde os anos 1960, quando a crítica francesa descobriu um “novo cinema canadense”, mas pouco visto – seus filmes são raros até na internet. Mais do que documentários, Perrault realiza filmes sobre pessoas que falam. E que precisam falar: em sua obra vemos que a língua francesa é sinônimo de resistência política num Canadá assustadoramente anglo-saxão.

Ao aproximar a língua da revolução juvenil, Acadie, Acadie?!? (1971), figura como uma obra chave de sua filmografia. Há uma cena significativa: quatro estudantes estão na assembleia para reivindicar a oficialização do idioma francês na cidade que dá título à obra. Tudo é construído a partir da palavra, o enquadramento evita o rosto das autoridades e encontra os jovens de costas. É uma cena de jogo de linguagem, cada um dá o seu golpe, sua cartada. Os jovens francófonos são os mais fracos, é evidente a insegurança de suas falas, pois estão em minoria, num espaço que não é deles e, ainda por cima, proibidos de discursar em sua língua original, apesar da enorme insistência. Perrault faz questão de mostrar que a opressão acontece em função e através da palavra, pelo modo agressivo e debochado como as autoridades respondem e pela proibição do francês naquela situação. No fim da vida, mais especificamente na última cena de sua obra, Perrault filmaria a batalha entre bois em Cornualhas (1994). Ali, os animais desfilam cabeçadas na luta pelo território. É muito próximo do que vemos em Acadie, Acadie?!?, com a diferença de que, na assembleia municipal, a arma é a palavra e o território é a língua.

O interessante é que, nesse cenário (e mesmo favorável à independência do Québec), Perrault tem a sensibilidade de introduzir um ponto cego na ideia de que a língua francesa representa uma marca identitária sólida da região francófona do Canadá. Em Um País sem Bom Senso (1970), por exemplo, a premissa da unidade pela linguagem é desconstruída a partir do mosaico de sujeitos falantes e da variedade incrível dos usos da língua. Do pescador ao intelectual, do político ao índio, temos uma polifonia de vozes, discursos, sotaques, dialetos e, evidentemente, histórias. Já em Acadie, Acadie?!?, apesar da ideia em comum de que a morte da língua é a morte de um povo, a coesão da revolução estudantil começa a perder a força quando os personagens trocam palavras, ou seja, colocam a língua em ação: os conflitos se tornam inevitáveis, se a língua tem o poder de aproximar, também tem o de distanciar.

É certo – e aqui vai um parêntese importante – que documentaristas brasileiros precisam conhecer a obra de Perrault urgentemente. Por diversos motivos, mas em primeiro lugar pra aprender que não se busca linearidade onde ela não existe. Trata-se do mal dos nossos filmes, quase todos realizados por carniceiros do audiovisual que reconstroem discursos a partir de uma obrigação narrativa, violentando o pensamento daquele que fala. Como bem definiu o crítico Sérgio Alpendre, é a “síndrome de Huguinho, Zezinho e Luisinho”: ninguém termina um raciocínio, mas tudo se articula de forma impecável, como se houvesse uma linha mestra entre os pensamentos de pessoas que pouco têm em comum. Desde Para que o Mundo Prossiga (1963), seu primeiro e cultuado longa-metragem em parceria com Michel Brault, o canadense opera num sentido oposto, valorizando a polifonia, a diferença, o choque entre os discursos, promovendo uma investigação da linguagem a partir do que a fala tem de elemento desestabilizador.

Trata-se da questão de Perrault: tirar a linguagem do trono de ouro. Na boca de seus personagens, ela está viva, movediça, impossível de ser imobilizada. Lembramos da faísca inicial de Manoel de Oliveira, que não é gênio por acaso, pois o cinema, por lidar sempre com a ação, com o movimento contínuo, é o espaço perfeito para que se visualize a linguagem distante do terreno transcendental e, consequentemente, mais próxima dos homens, daqueles que a criaram e que a usam das mais diversas maneiras no dia a dia. Impressiona a contemporaneidade da obra de Perrault com a guinada filosófica que se afasta do beco sem saída metafísico e vê no ato da fala a possibilidade mais interessante de se questionar a linguagem. How to do Things with Words, de J.L. Austin, é publicado postumamente em 1962. O Speech Acts de John Searle viria ao mundo em 1969. O canadense não era o único no cinema a pensar a linguagem naquele momento, mas talvez tenha sido o que mais concentrou suas investigações numa abordagem pragmática, que vê a fala como sinônimo de ação.

Encontramos certa proximidade em alguns dos primeiros filmes de Werner Herzog. Em Últimas Palavras (1968), temos um homem, o único sobrevivente de uma ilha grega, que se nega a falar. A interação entre ele e as outras pessoas se dá com a música. Apesar do gosto de fim de mundo em Herzog e do gozo interminável em Perrault, os dois parecem concordar que a linguagem só existe enquanto é usada. Isso fica bem claro, em Herzog, no documentário fabuloso O País do Silêncio e da Escuridão (1971), sobre cegos-surdos que precisam descobrir uma linguagem própria (a cada um deles, não a todos cegos-surdos) para se comunicar. Não existe uma linguagem suprema, que contemple o mundo. Mais pessimista, extremamente alemão – a referência grega não aparece impunemente –, Herzog é o cineasta das últimas palavras (e das atitudes derradeiras, dos últimos homens, e, é claro, dos últimos atores – ele mesmo, Klaus Kinski). Algo de extraordinário precisa acontecer para que o mundo prossiga. Já o sereno Pierre Perrault é o cineasta das primeiras palavras. É o que testemunhamos em sua obra: em movimento, a palavra é sempre uma primeira palavra.

* Publicado pela primeira vez no site do Jornal Tabaré, em julho de 2012

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