jersey boys

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Tommy DeVito, o empreendedor malandro do bairro, encara o espectador e ajuda a contextualizar a história: naquela vizinhança italiana da Nova Jersey dos anos 1950, existiam poucas maneiras de vencer na vida, entre elas, entrar para a máfia e virar um artista de sucesso. Num primeiro olhar, essa é, sem tirar nem por, a trajetória dos Four Seasons que Clint Eastwood conta em Jersey Boys, adaptação livre do musical da Broadway sobre o célebre grupo.

Há mais, no entanto. Não espere um musical nos moldes (clássicos ou modernos) mais reconhecíveis, nem uma montanha-russa exageradamente intensa à la Scorsese sobre jovens ítalo-americanos que descobrem a fama ao mesmo tempo em que são dragados pela máfia. Um dos últimos elegantes da Hollywood moderna, Eastwood fez um filme inesperado sobre os charmes e as regras – esses parceiros grudentos – da indústria da música pop dos anos 1960.

Os personagens falarão com os espectadores mais vezes ao longo do filme, afinando passagens importantes da biografia do grupo, comentando entrelinhas sobre os amigos que a narrativa não quer dar conta, fazendo com que uma história que percorre mais de uma década não seja interrompida por nada.

Jersey Boys, de fato, não é um filme que perde tempo. Os pequenos roubos, os encontros e desencontros com as mulheres, a fidelidade à italiana entre os integrantes, tudo encaminha a narrativa para o palco. Desde cedo, todo sabem que Frankie Valli, “a voz de anjo”, conhecerá o sucesso. Por isso ele é tão protegido, pela máfia, pelos companheiros de grupo, por produtores, até terminar sozinho, encarando ao mesmo tempo seu fracasso pessoal (o divórcio, a relação problemática com a filha, além de uma tragédia familiar) e o sucesso da carreira solo. Pois ao contrário de um Bird – para citar outro mergulho de Eastwood na biografia de um músico – a arte aqui não se mistura com a vida. Não poderia ser diferente (e aí os dois filmes se aproximam, mantendo uma fidelidade constante a cada universo representado).

Ameaçados por mafiosos no camarim de Ed Sullivan, incomodados com acordos feitos às escuras, abalados pela morte de pessoas amadas, Os Four Seasons nunca deixarão de apresentar sorrisos e harmonias intocáveis. É justamente esse grupo, o da música e imagem perfeitas, ou seja, o modelo ideal da indústria musical até meados dos anos 1960, quando o rock passa a obrigar outra postura na agenda juvenil, com novos valores de subversão, que Clint Eastwood retrata (e de alguma forma lamenta seu fim) aqui.

Sem panfletos nem granadas, o cineasta se apropria da história dos Four Seasons para fazer, também, um filme melancólico que encontra seu fim no momento em que o homem lança o primeiro olhar para trás e não consegue ver muita coisa com nitidez. Sobra, mais uma vez, o palco, o porto seguro, onde se pode estar profundamente sozinho e acompanhado pelo mundo inteiro: Valli apresenta Can’t Take My Eyes Off You “provavelmente um desastre, pois não é pop e nem é rock” pela primeira vez. Surge uma elipse gigantesca que retoma o grupo já num outro contexto, o das homenagens “oficiais” aos clássicos do rock e depois os créditos, que remontam ao modo como o próprio cantor se reinventou comercialmente nos anos 1970, com a celebração nostálgica – e ironicamente fantasiosa, pois insere os tiques do musical que o filme ignorava por completo até então.

Por tudo isso, não me parece uma falha o personagem de Frankie Valli também ser extremamente protegido pelo cineasta. Há sempre uma canção para substituir a dor, há sempre um hit para contornar a crise, é evidente. Mas as bandas pop não existem pra isso? O próprio artista questiona as obrigações profissionais ao longo do filme, sem demonstrar, entretanto, muita vontade de enfrentá-las. Mais interessado na estrela em relação ao homem que no homem em relação à estrela, invertendo, dessa forma, as convenções das cinebiografias recentes de figuras icônicas, Eastwood consegue algo raro: revelar as tensões da escalada de um dos operários mais talentosos da história da música sem deixar de amar o resultado de seus esforços.

* Publicado pela primeira vez na edição de maio/junho do Zinematógrafo. 

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top 10 cinema 2009

10 – A Troca (Clint Eastwood)

Sofre do mesmo problema de Milk, de Gus Van Sant, quando abandona a tensão da narrativa para seguir contando os fatos de uma história verídica. Apesar disso, tem seus grandes momentos. É um filme que consegue dançar bem entre o drama e o policial.

09 – A Erva do Rato (Julio Bressane)

Inferior ao Cleópatra, A Erva do Rato se dá muito bem no descompromisso de alguns momentos. A impressão é que Bressane estava se divertindo muito durante o filme. Também reforça o talento do cineasta para trabalhar histórias com a cumplicidade entre duas pessoas.

08 – Avatar (James Cameron)

Hoje é um filme quatro estrelas. Em dez anos, dificilmente será. O espetáculo em 3D é fascinante, isso é indiscutível, mas é provável que o filme se torne uma mera curiosidade, um exercício das novas tecnologias de um determinado momento do cinema. A invenção visual sublime acaba perdendo o fôlego por causa de um roteiro que repete temas já esgotados (há muito tempo) no cinema de ficção-científica.

07 – Deixa Ela Entrar (Thomas Alfredson)

Aqui, pelo contrário, um filme que cresce com as revisões. Tenho uma profunda admiração pelas obras que, nesses tempos de choque a quem puder, caminham pela sutileza. O desfecho na piscina é uma cena para se guardar com carinho.

06 – Entre os Muros da Escola (Laurent Cantent)

Também me deliciam filmes bem resolvidos em pequenos espaços. A sala de aula é praticamente o único cenário. E aí a montagem toma a dianteira. Ela é o muro, na primeira hora raramente vemos o professor da escola no mesmo plano dos alunos. Temos aqui um belo exemplo do uso da montagem como recurso narrativo.

05 – Inimigos Públicos (Michael Mann)

Outra vez a montagem dá o tom. Maravilhosa a diferença entre os momentos do Dillinger bandido e do Dillinger amante. No crime, a câmera é agressiva, a montagem acelerada; no amor, tudo é mais leve, harmonioso. Bom quando um filme – e não apenas seu protagonista – também parece sentir.

04 – Moscou (Eduardo Coutinho)

Mais um filme de poesia que um documentário. Ao contrário de Jogo de Cena, um filme de tese, conceitual, aqui temos um vôo livre. de Tchekov a Antonio Marcos, primoroso.

03 – Amantes (James Gray) 

Amantes mostra que, muitas vezes, amor é essa necessidade louca de turbulências. Duas marcantes cenas no terraço, completamente diferentes, para colocar James Gray como um dos grandes cineastas da atualidade.

02 – Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino) 

Mais uma vez chupando de tudo (de Robert Aldrich a Russ Meyer), Tarantino manda a verossimilhança para o inferno ao colocar todo o alto escalão nazista dentro de um pequeno cinema em Paris. Provavelmente a mais inteligente homenagem ao cinema do diretor, colocando-o como figura central do filme.

01 – Gran Torino (Clint Eastwood)

O melhor filme do ano. Engraçado e melancólico, sutil e surpreendente. Ótimo ter um filme desses num ano em que a ficção rasa como pretexto para tratados sociológicos (Distrito 9) é saudada por muita gente como obra-prima. Aqui temos um exemplo perfeito de filme que pode ser visto com olhos de caça e de caçador. Se o espectador quiser tirar uma lição sobre certas particularidades dos Estados Unidos, pode; se quiser “apenas” assistir um filmaço sobre intolerância e amizade, também pode. Pelos dois olhares é uma tremenda obra-prima.