isto não é um filme ou quando dois filmes iranianos estão em cartaz na sua cidade

É claro que Isto Não é um Filme é uma obra política. O contexto iraniano está presente o tempo todo, da primeira à última cena. Mas o drama do filme não é político. Pelo menos não no sentido mais restrito do termo. O drama de Jafar Panahi é essencialmente cinematográfico. De cara, há a câmera e ele: planos estáticos, um café da manhã corriqueiro, fala ao telefone, come um pedaço de pão, num minimalismo extremo. Mas aquilo não dá filme, pelo menos na opinião de Panahi. Tentando resolver o impasse, busca um amigo documentarista, Mojtaba Mirtahmasb, e o filme toma outro rumo: há o diálogo, agora a câmera pode acompanhar o irrequieto cineasta em sua prisão domiciliar. A impressão é a de que teremos um filme, o cineasta não esconde a euforia, resolve encenar um roteiro proibido na sala de sua casa, usando o tapete e uma cadeira como cenário. Mas a história mal começa e Panahi interrompe novamente: não dá filme.

Para tentar explicar o fracasso, Panahi recorre a cenas das próprias obras. Primeiro fala da questão do ator, do que ele espera de um ator, que não saiba exatamente como agir, mesmo tendo um texto para seguir. Cita uma cena de Ouro Carmim (2003) e mostra como a imprevisibilidade do ator pode ser responsável pela mise en scène. Em seguida, exibe um trecho de O Círculo (2000) e ressalta a presença do espaço, do cenário. Aqui, segundo Panahi, o cenário é responsável pela mise en scène, a câmera e os atores estão em função dele. Fica claro que o iraniano é um cineasta de reação, precisa de um estímulo – também vemos isso no trecho que ele exibe de O Espelho (1997) em que a menina decide parar de atuar. Panahi precisa reagir rápido para entender aquela situação e colocá-la no filme.

Pode-se questionar o aspecto didático da obra, mas ele é fundamental se considerarmos o contexto, a prisão do cineasta. Pois a partir das explicações de Panahi, entendemos perfeitamente o seu drama:  como estabelecer uma mise en scène de reação trancado em seu apartamento, num espaço que ele controla completamente? E mais, sem atores, apenas com o próprio corpo? Definitivamente, não dá filme.

Mas Isto Não é um Filme não é uma tragédia, ao menos num sentido cinematográfico, como nos mostra o belo desfecho (num sentido político ele guarda o ar de tragédia). Quando vai se despedir de Mirtahmasb, Panahi esbarra com o homem que recolhe o lixo de seu prédio. Surge uma faísca. Um estranho, um espaço externo. Sem pensar duas vezes, o cineasta pega a câmera e segue o rapaz pelo elevador, na pequena odisséia que é a busca pelo lixo de cada andar. Não se sabe o que vai acontecer, se haverá lixo nos corredores, se o jovem precisará tocar a campainha e pegar as sacolas com os moradores. Panahi permanece com a câmera dentro do elevador e interroga o rapaz, que faz mestrado em arte e vive de bicos.

É evidente o alívio de Panahi em todo o desfecho. Agora ele pode reagir, consegue estabelecer um diálogo com alguém que ele não conhece o suficiente. E ainda há o elevador como um espaço imprevisível (aliás, o elevador é sempre um espaço imprevisível, por menor que seja), potencializado pelas conversas fora de quadro que o jovem tem com os moradores. A última imagem, de uma enorme força estética e política, é a confirmação: há filme.

Do outro lado, temos A Separação. A catástrofe que é A Separação, de Asghar Farhadi. Pois justamente o que não dá filme, o drama de Panahi, é o que sustenta a obra de seu conterrâneo. A Separação é uma ode à impaciência. Impaciência diante dos atores, diante dos espaços, diante do tempo (o que é a montagem no piloto automático destruindo cenas fundamentais, como a discussão entre o protagonista e a mulher que o acusa na delegacia?). A impressão é a de que se tivesse outros atores e outros espaços, Farhadi faria exatamente o mesmo filme. Aliás, Se Farhadi estivesse preso em seu apartamento, ainda assim era capaz de fazer o mesmo filme. Sua mise en scène, apoiada por uma montagem apressada que está sempre se antecipando à ação, é comparável a alguém que mastiga a comida e, pleno de orgulho, cospe os restos de volta ao prato.

O ápice da impaciência, e que liquida de vez com o filme, é quando Farhadi trata o choro da filha do casal divorciado como mera informação. Vemos a adolescente chorando no carro, é uma situação complicada, a separação dos pais, o problema com a empregada que ela gostava, a saúde do avô. Pode-se dizer que todo o drama do filme está contido naquele choro, mas a imagem dura dois ou três segundos. Uma lágrima cronometrada que sequer desce o rosto inteiro da menina. É um resto de um choro.

Não é estranho que A Separação tenha êxito enorme no Ocidente, vencendo o Urso de Ouro, Oscar e tudo mais. A fórmula do sucesso é precisa: espectadores impacientes, que pagam caro para entrar numa sala de cinema e mal conseguem olhar uma imagem, são tarados por filmes impacientes.

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4 respostas em “isto não é um filme ou quando dois filmes iranianos estão em cartaz na sua cidade

  1. Acho que tu observou muito bem sobre a montagem de Separação. É realmente impaciente, não termina os movimentos, não dá o tempo que o filme pede. Em Procurando Elly, tb do Farhadi, é a mesma coisa, e também me incomodou.

    Mas acho que Separacao tem muitos méritos tb, principalmente no roteiro (é todo cheio de voltas, degraus e tudo se amarra) e a fotografia (bem suja, lembra o Kiarostami).

    • Pois é, me incomodou porque o filme tem méritos, principalmente no modo como consegue amarrar as diversas situações, parece que vai ser um drama conjugal, de repente entra a filha, o avô, a empregada…
      Mas na verdade me incomoda mais porque a primeira imagem é uma pista falsa, e é a única em que o Farhadi dá o tempo que o filme pede. Depois é só correria.

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