inquietos

Em Inquietos, chama atenção o modo como Gus Van Sant usa as canções Two of Us, dos Beatles, e The Fairest of the Seasons, de Nico. Ou melhor, chama a atenção o modo como ele edita as duas, suprimindo partes importantes, justamente aquelas que sinalizam uma mudança, tanto na estrutura melódica quanto na poesia. Em Two of Us, não há o trecho em que o casal protagonista revela ter memórias mais longas do que a estrada que está adiante. Há apenas as partes que remetem ao presente, com o casal fazendo coisas banais, de pura inconsequência de quem está apaixonado, como queimar fósforos e escrever cartas na parede. No fim, surge a sempre poderosa voz de Nico numa canção também baseada no momento. Não mais um casal, apenas uma pessoa que precisa escolher. “Agora” é a palavra-chave, se repete ao longo de toda a composição. Gus Van Sant recusa, dessa vez, o momento em que o narrador encontra os olhos da pessoa amada, e aproxima a primeira da última estrofe, da indecisão inicial à conclusão de que ele partirá na mais bela das estações. Assim como na música dos Beatles, ignora o verso que indica uma lembrança a dois do narrador (embora esteja no presente), e que destoa da indecisão solitária das estrofes principais.

O trecho dos Beatles é o de um casal que goza a vida de forma poeticamente irresponsável. O de Nico é o de um sujeito que viveu algo intenso e projeta o futuro. Praticamente resumem a obra, parece ser um caminho interessante para compreendermos os protagonistas de Inquietos. Num primeiro momento, talvez aquilo tudo pareça estranho – jovens com um certo gosto pela morte. Seria normal, até pelas situações que são colocadas, vê-los como duas figuras mórbidas. Mas o olhar de Gus Van Sant é doce. Não há morbidez, mas dois jovens que aprendem a amar. Por isso que é fácil se identificar com o casal, mesmo quando correm num velório ou conversam num cemitério.

Até porque fica claro, desde o início, que o modo irresponsável como lidam com a morte é o grande elemento charmoso dos dois. Irresponsável, aqui, num sentido batailliano, como o casal da canção de Paul McCartney que faz coisas apenas por fazer, apenas pelo impulso da paixão, sem a preocupação de ser alguém funcional para o mundo. Se é verdade que o medo da morte é a única coisa que diferencia o homem dos animais, os dois realmente parecem viver num mundo à parte. Não por acaso, temos poucos personagens no filme – e o que mais se destaca é o fantasma de um kamikaze japonês que acompanha o rapaz, alguém que está apenas em seu universo.

Essa vivacidade diante da morte é o ponto alto de Inquietos. Importante lembrar da enxurrada de filmes que esbarram no tema atualmente. Nunca o além (ou o trauma da morte) vendeu tanto. E a obra de Gus Van Sant parece justificar a frase do fantasma de Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas, de Apichatpong Weerasethakul (outro filme que toca no tema de forma incrivelmentre madura) de que o céu é superestimado e o surpreendente está com os homens aqui. Comparando com dois mamutes de 2011, Melancolia, de Lars von Trier, e Árvore da Vida, de Terrence Malick, o singelo filme de Van Sant se destaca por encontrar um caminho terno para olhar os momentos delicados de seus personagens. von Trier não consegue encarar o sofrimento de suas mulheres, Malick está mais interessado em filmar o céu, talvez querendo encontrar uma resposta divina à tragédia colocada em cena. Em Inquietos, pelo contrário, a câmera mundana de Van Sant não se intimida com o drama do casal e encontra diversas vezes o olhar brilhando de quem está descobrindo um amor enorme. Ou seja, um filme que à beira da morte se preocupa com a vida.

Mas nem tudo são flores. Há uma significativa mudança de tom na segunda metade que quase bota tudo a perder. Abandona-se a ideia do tempo presente como a pulsão narrativa, da irresponsabilidade, da postura inútil e festiva tão bem descrita em Two of Us. É como se o casal que dirigia pra lugar nenhum encontrasse a sua estrada, de certa forma, um ponto final. Eles deixam de brincar e começam a refletir sobre seus problemas, percebem que têm problemas pela frente. A morte começa a assustar.

Isso fica bem claro na cena em que o casal discute. Não é mais o diálogo nonsense que pontua os primeiros encontros dos dois, mas uma cena de marido e mulher, de quem carrega uma fardo, uma história, uma mágoa que se revela no olhar, no tom de voz, algo totalmente distante das aventuras infantis que presenciamos antes. Eles tomam consciência de sua tragédia. Pra piorar, debocham do próprio universo, das inutilidades que nos cativaram. O amadurecimento dos personagens, além de forçado, depõe contra a ingenuidade bonita da primeira parte do filme.

E então, no lugar dos atos fortuitos, das conversas irresponsáveis, começam a surgir cenas que explicam psicologicamente os personagens, principalmente o rapaz. Aos poucos, entendemos por que ele freqüenta funerais de desconhecidos ou por que ele parou de estudar. É como se cada cena surgisse para colocar mais um tijolinho narrativo. Assim como o casal, o filme também se rende ao aspecto funcional. É preciso ser marido e mulher, ter crise de marido e mulher, também é preciso ser filme, ter começo, meio e fim de filme. No desfecho, Gus Van Sant até tenta retomar a poesia da primeira metade, com a contribuição do fantasma japonês, mas o estrago já está feito.

Não deixa de ser o mesmo problema que acontece em Milk, quando Gus Van Sant abandona seus personagens para apenas ilustrar um roteiro. Se não tivéssemos visto Últimos Dias, Elefante e Paranoid Park (ou até mesmo suas obras iniciais), provavelmente a narrativa correta de Inquietos não incomodaria. Mas sabe-se que Gus Van Sant pode estabelecer uma relação mais intensa com seus personagens, confiando neles, inclusive em seus buracos narrativos, em suas incoerências, como aspectos fundamentais de sua poesia. Pois até o fantasma japonês torna-se um elemento de roteiro, quando vira uma espécie de consciência madura do rapaz. Enquanto ele é um personagem autônomo, com suas dores e seus dilemas, também juvenis, permanece como um achado incrível. Não é por acaso que o cineasta recorre a ele para conseguir encerrar a obra fugindo da curva melodramática banal que a mudança de tom ameaça.

Entre belos e desastrados momentos, a obra parece carimbar um forte ponto de interrogação em relação a Gus Van Sant. Se a guinada absurda nos anos 2000 o colocou num patamar altíssimo, seus dois últimos filmes parecem lembrar que sua obra é muito mais irregular do que genial. O que incomoda em Inquietos é que o filme poderia deixar um gosto estranho, num sentido positivo, com a história de um amor diante da morte. No entanto, fica o gosto estranho de estar presenciando a queda daquele diretor que ameaçou ser um dos protagonistas mais instigantes do cinema contemporâneo e que agora vive (novamente) de soluções fáceis. É como se um compositor não conseguisse sustentar a emoção do público com uma melodia dissonante, tendo que recorrer a um refrão, a uma estrutura reconhecível para que a lágrima caia no fim.

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2 respostas em “inquietos

  1. Há uma coisa que particularmente me incomodou nesse filme. O filme inteiro lhe dá pistas de que o kamikaze é um sintoma esquizofrênico: por exemplo, o kamikaze sempre sabe onde estão os barcos a serem derrubados na batalha naval (demonstrando que ele e o garoto são as mesmas pessoas, ou, ainda, que o garoto quer ter seus barcos derrubados). O kamikaze sabia onde a moça morava, sem nunca ter sido levado lá pelo moço. Tudo isso, para no final do filme, ser declarado que o kamikaze é um espírito. Outra coisa: o garoto afirma ter estado morto por alguns momentos e declara que “do outro lado” não há nada. O filme que tinha toda a potência para ser uma história de amor e de afirmação de vida em frente à morte sem ter de recorrer ao sobrenatural, ao além vida, a Deus, joga tudo isso pela janela.

    • É, o problema é que quando o filme se rende ao roteiro, o fantasma se torna incoerente mesmo. E pior, vira uma ferramenta pra que tudo se resolva. Antes disso, as incoerências nem me incomodavam (por exemplo, ele ficar abalado quando falam em Hiroshima e não saber que o Japão virou aliado dos Estados Unidos, dois acontecimentos posteriores à morte dele) Não cheguei a pensar o fantasma como um sinal de esquizofrenia, na batalha naval, por exemplo, acho que é mais uma questão de humor negro, já que ele é um kamikaze, especialista em acertar navios americanos. Isso eu gosto. Enquanto ele um amigo do rapaz, acho bem interessante. Mas quando vira a consciência…

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