top 10 hollywood olha para si

Como o tempo anda escapando, os textos sumiram. Reta final do mestrado e eu só encontro tempo – e motivação – para terminar a dissertação, que é sobre como o cinema pré-anos 1960 percebeu suas possibilidades modernas.  Passei boa parte dos dois últimos anos vendo todo o tipo de filme sobre o cinema, dos mais livres e ensaísticos aos mais prosaicos, em que o cinema é apenas um pretexto narrativo. É uma forma de tentar encontrar as histórias do cinema através dos filmes, já que os teóricos e os historiadores muitas vezes parecem mais interessados em criar o seu próprio cinema do que em dissertar sobre ele. Isso é ótimo, mas era importante que eu começasse a criar a minha história logo.  O top 10 Hollywood olha para si é um modo de manter o blog ativo sem deixar a dissertação de lado.

Escolhi filmes até a década de 1960, que acabou sendo a delimitação da minha dissertação. De qualquer forma, os filmes de Hollywood que olham para si nos 1950 já deixam claro que há um momento forte de ruptura. O que vem depois, assimilando (e muitas vezes domesticando) os atrevimentos dos Novos Cinemas, é uma outra história. Digamos que é um top de filmes da Hollywood clássica – que de clássica nada tem, principalmente se pensarmos numa das principais exigências da modernidade: a consciência de si. Como nenhuma outra cinematografia, Hollywood oferece um olhar bem crítico em relação a sua própria história.

Não se trata de uma lista sobre filmes hollywoodianos sobre cinema, então não entraram filmes obrigatórios como Cidadão Kane, de Orson Welles, e a brilhante trinca de Hitchcock (Pavor nos Bastidores, Janela Indiscreta e Um Corpo Que Cai) que coloca em evidência – e praticamente esgota – a relação entre o homem e a imagem. Da mesma forma, duas obras-primas de Buster Keaton dos anos 1920 também ficaram de fora: Sherlock Jr., que aborda a relação onírica entre espectador e filme, e O Homem das Novidades,  filmaço que deixa obsoleta boa parte das bravatas futuristas do grande Dziga Vertov. O soviético não está nem aí pro homem que segura a câmera em Um Homem com a Câmera, filme-irmão do de Keaton, que nos diz, desde as primeiras cenas, que o seu personagem filma por amor.

Portanto, entraram no top apenas filmes que realmente colocam o universo de Hollywood em cena: das entranhas da indústria ao conflito de egos, dos sonhos ingênuos com sucesso aos pesadelos fantasmagóricos com o fracasso.

10 Fazendo Fita (1928), de King Vidor

Fazendo Fita passa discreto em meio a  monumentos do cinema dirigidos por Vidor nos anos 1920 como A Grande Parada, A Turba e Aleluia!. Se não pode ser comparado com suas obras-primas, também não deve ser ignorado. O tema favorito do cineasta está aqui: o sonho de se tornar grande. A cena da jovem caipira chegando ao lado do pai, boquiaberta, na rua dos grandes estúdios de Hollywood é um primor. Com um humor extremamente ácido, Vidor critica a facilidade com que estrelas são criadas naquele mundo. E de quebra lança um comentário bem interessante sobre o que era considerado arte e o que era desprezado já na Hollywood dos anos 1920.

09 Nasce uma Estrela (1954), de George Cukor

Cukor já havia feito Hollywood, em 1932, um dos filmes mais barra pesada sobre a indústria do cinema, com direito a um suicídio com um tiro na cabeça. A versão de Cukor para Nasce uma Estrela também é poderosa. Evidencia ainda mais o que já fica aparente no original de William A. Wellman, de 1937: enquanto estrelas nascem, outras morrem. No original, há uma clara mudança de protagonismo durante o filme, da caipira sonhadora ao ator em plena decadência. Aqui, Cukor já coloca desde o início o personagem do ator em primeiro plano, contando com a forte presença de James Mason. Seu charme aristocrático dá outro tom ao personagem. É interessante como o filme é todo construído a partir de duas narrativas, a de Mason é densa, a da caipira interpretada por Judy Garland é onírica, sua ascensão é mostrada através de números musicais espetaculares. A cena de suicídio, que é basicamente uma elipse poética no filme de Wellman, aqui é ainda mais bonita. Vemos o mar refletido nos vidros da casa durante um bom tempo. É o prenuncio, engole o personagem antes dele realmente se entregar. George Cukor sabia ser clássico.

08 A Condessa Descalça (1954), de Joseph L. Mankiewicz

Hollywood olha para si novamente sob um céu nebuloso. Bom, o filme começa num funeral, o funeral de uma moça que se tornou atriz de sucesso, interpretada por Ava Gardner. O que segue são longos flashbacks entrecortados, de várias pessoas que estão em seu enterro. Não temos a tradicional história em que nasce uma estrela. Pra começar, a jovem espanhola demora muito pra ser convencida a se tornar atriz. Não é um sonho dela. Sua trajetória em Hollywood é mostrada de forma abrupta, a grande cena é uma festa em sua mansão em que ela parece desprezar todo mundo. Anticlímax total. Para completar, o filme já olha para o próprio cinema de forma crítica. O personagem de Humphrey Bogart tece comentários sobre roteiro, sobre atores, sobre os clichês, sobre a relação entre o cinema e a vida, coisa que não se vê tanto nas obras de Hollywood sobre si. De qualquer forma, em determinado momento o filme abandona o cinema para seguir a jovem atriz que se torna condessa. Ela é sempre triste, distante, um personagem bem complexo, difícil de olhar. Interessante que o filme é todo conduzido por narrações e ao mesmo tempo deixa uma porção de coisas não ditas.

07 Cantando na Chuva (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly

Até Cantando na Chuva, boa parte dos filmes hollywoodianos sobre o cinema eram no presente, o lema era: “o sucesso é agora”. Sintomático que nos anos 1950 Hollywood comece a olhar para trás, e ainda para momentos em que conseguiu superar adversidades. Aqui o tema principal é a chegada do som no cinema, sobre como um filme fadado ao fracasso se tornou um sucesso. Um belo comentário indireto sobre a crise da indústria cinematográfica norte-americana nos anos 1950. Sobre isso, há um momento emblemático, quando o protagonista vivido por Gene Kelly se coloca como uma peça de museu. Mas foram tempos de glória, o temor em se tornar museu passaria rápido e daria lugar a algumas das cenas mais celebradas da história dos musicais. Pode-se dizer que Cantando na Chuva inaugura a nostalgia em Hollywood.

06 Contrastes Humanos (1941), de Preston Sturges

Um dos primeiros filmes de Sturges, atípico em todos os sentidos. Mostra duas coisas que são raríssimas nos filmes sobre o cinema em Hollywood: o cineasta como um criador, alguém que não está realizando um trabalho meramente burocrático; e o espectador na sala de cinema. Não por acaso, o filme literalmente sai de Hollywood. A sala de cinema, na verdade, é uma igreja improvisada em que presos podem assistir aos desenhos animados da Disney. Trata-se de uma cena icônica, os sorrisos daqueles homens diante das imagens mudam toda a concepção de cinema do cineasta, homem obstinado a realizar obras políticas à la Frank Capra. Ele poderia ter ouvido, desde o início, a gatinha (Veronica Lake) que o acompanha em sua jornada rumo à pobreza: ela sonha em ser atriz de um filme de Ernst Lubitsch.

05 Almas à Venda (1923), de Rupert Hughes

Uma jóia de filme. Em 1923, já temos basicamente todas as premissas que seriam exploradas nos filmes posteriores, principalmente o retrato daquele mundo como uma terra de sonhos. Logo no início, Hollywood surge literalmente como um delírio, uma miragem no deserto. A protagonista foge do marido psicopata e é salva por um galã que rodava um filme. Depois do sonho, a realidade: é difícil entrar naquele mundo, ela precisa vender a alma. O filme ainda traz imagens documentais incríveis de Charles Chaplin e Erich von Stroheim (nas filmagens do mítico Ouro e Maldição) dirigindo filmes com toda a pompa que um autor de cinema deveria ter. Hollywood demoraria muito tempo para mostrar os cineastas em cena dessa forma novamente.

04 A Grande Chantagem (1955), de Robert Aldrich

Do faroeste ao filme policial, Aldrich foi demolindo radicalmente as estruturas sólidas do cinema hollywoodiano nos anos 1950. Em 1955, olha para aquele universo e mostra o inferno de Hollywood – mais do que qualquer outro filme da época mostrou. Aqui, a indústria do cinema assassina e orquestra crimes, é praticamente uma máfia.  O sempre sinistro Jack Palance interpreta um ator sufocado, que praticamente não consegue sair da sua sala com as visitas indesejadas de empresários, produtores, amigos e amantes. Pode-se dizer que o filme é sobre um ator que recebe fantasmas em sua casa. Só não é uma obra-prima inquestionável da história do cinema porque falta intensidade na direção de Aldrich em boa parte do filme (mas não no desfecho, extremamente impactante). Imagino um texto desses na mão de um Cassavetes ou de um Fassbinder… Mas ainda sim é uma obra ímpar do cinema americano dos anos 50.

03 Movie Crazy (1932), de Harold Lloyd e Clyde Bruckman

Apesar de não ser creditado, Lloyd dirigiu boa parte do filme. É um gênero à parte dos filmes sobre Hollywood: as comédias em que alguém anarquiza os estúdios. Já existiam na década de 1910, em His New Job, por exemplo, um dos primeiros filmes de Chaplin. Nos anos 1930, Buster Keaton tentou fazer o seu (Free and Easy) e se deu mal. Keaton escorregava com o cinema falado, coisa que Lloyd dominava tranquilamente. Seu humor era tão físico quanto intelectual. Há momentos absurdos aqui, como aquele em que o personagem de Lloyd, mais um caipira que tenta a sorte em Hollywood, veste sem querer o terno de um mágico numa festa chique e aí… tudo acontece! Qualquer semelhança com a bagunça causada por Peter Sellers em Um Convidado Bem Trapalhão não é mera coincidência. 

02 A Última Ordem (1928), de Josef von Sternberg

Não é exagero ver Sternberg como o grande cineasta da virada dos anos 1930. O domínio de qualquer possibilidade de cinema que ele demonstra nos filmes daquele período é assombroso. O que é O Expresso de Xangai, por exemplo? Um filme em que tudo, até uma guerra civil, é pretexto para que se filme um rosto, o de Marlene Dietrich. E esse rosto era filmado como o mais bonito do mundo.  Em A Última Ordem, ao contrário, há uma história poderosa por trás do amargura no rosto de Emil Jannings. Ele faz um nobre russo que, após a revolução de 1917, precisou fugir para os Estados Unidos. Acaba tentando a sorte como figurante em Hollywood. Em Sternberg, o amor sempre tem o poder de destruir o homem. Aqui não é diferente, mas o cinema, mesmo que por vias cruéis, oferece-lhe uma redenção.

01 Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder

Um primeiro lugar esperado. No entanto, demorei a virar fã dessa obra-prima. Quando vi pela primeira vez, ainda num período de crença total na imagem, me incomodei com a narração que costura toda a obra. Depois fui descobrindo que o cinema não era só imagem e que as palavras, escritas ou faladas (que são coisas bem diferentes, diga-se de passagem) eram fundamentais. E Crepúsculo dos Deuses é um dos filmes com as palavras mais belas que já ouvi, até porque elas são ditas de forma impecável. O tom ironicamente manso da narração-fantasma é coisa de mestre. E a cereja do bolo está na cena em que Norma Desmond pede o close-up final e Billy Wilder não realiza o desejo da velha atriz: a imagem perde o foco antes de se aproximar totalmente do rosto.  Um close-up ali jogaria todo o filme no lixo, não era momento de misericórdia. Mas Billy Wilder é dono de uma crueldade que só os gênios e os criminosos podem ter.

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