melancolia ou o desespero do cineasta

Para Lars von Trier, o sofrimento é uma vedete. Não é novidade. O habeas corpus da vez é que o próprio cineasta estava sofrendo uma forte depressão durante a realização de Melancolia. É fácil, assim, tentar pensar o filme como um auto-retrato imediato de uma situação de desespero. Ainda mais quando conhecemos os problemas das duas protagonistas, Justine e Claire, irmãs aparentemente opostas, interpretadas por atrizes que em nada se parecem: Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg.

Talvez para reforçar tal oposição, Melancolia é dividido em duas partes: Justine é a cerimônia de casamento e Claire é o fim do mundo. A divisão é importante porque há apenas dois grandes acontecimentos no filme. E tudo o que sabemos das irmãs é o que podemos ver nesses dois momentos de crise. Como não sou médico, uma análise clínica do filme não interessa. Se há algum caso de depressão, não faço ideia.  Em Melancolia, o que vejo é o desespero das irmãs diante de cenários diferentes, situações em que elas se vêem obrigadas a reagir.

A crise de Claire é justificável, afinal, um planeta se aproxima da Terra.  Já a crise de Justine, mulher que já parece trazer a tragédia no nome, é mais problemática: a cerimônia do casamento se transforma, aos poucos, num inferno. Tudo vai pelos ares. É difícil situar exatamente o que acaba atingindo os nervos da jovem ali, há diversos elementos colocados.  Mas não se trata, de forma alguma, de uma crise gratuita. Dá pra concluir que Justine, pelas idas e vindas de humor e pelas ações intempestivas, tem um lado instintivo intenso, enquanto Claire, que sempre segura a onda de todos, é extremamente racional.

A diferença entre as irmãs fica ainda mais evidente no momento em que o fim do mundo parece inevitável.  Durante boa parte do filme,  Claire é a personagem forte, sabe lidar com a família problemática, os imprevistos no casamento e auxilia da melhor maneira possível a irmã. É justamente a aproximação do planeta que muda o cenário. A irmã que definha se torna serena enquanto a mulher firme entra em colapso.

Pois a crise de Claire é a crise do mundo. Quando percebe o fim dele, não há mais nada que possa fazer, não há mais um papel a cumprir. Enquanto na primeira parte há uma mulher que recusa o mundo – o noivo, a família, o emprego –, na segunda há uma mulher que se desespera com o fim do mundo. O cenário deixa claro que a fraqueza está em Claire. Justine sofre justamente porque é forte. Se recusa o mundo, é porque percebe que ele é um horror.

A fraqueza de Melancolia é que o sofrimento das  irmãs parece algo pequeno perto do desespero de um cineasta  impotente diante da própria criação. A prova disso é a câmera na mão, certamente uma das piores que o cinema já viu. Nada próximo de uma câmera viva, que dialoga com o estado mental dos personagens. Pelo contrário, é uma câmera que foge deles, como alguém que conversa desviando o olhar.  Bom, o dinamarquês está longe de ser um grande encenador, não é um homem da mise en scène, não é um cineasta que vai fazer uma obra-prima apenas com um rosto. Mas o que acontece em Melancolia é uma legítima tragédia. Acostumado com um cinema de tese,  Lars von Trier se perde ao tentar realizar um filme que parte essencialmente de seus personagens.

E se o dinamarquês anunciou que o filme é uma espécie de exorcismo pessoal, a impressão é a de que ele não conseguiu encarar seus próprios demônios. De qualquer forma, o cineasta deixa aqui uma valiosa lição: se você não consegue filmar uma pessoa, nada mais coerente do que filmar o fim do mundo.

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2 respostas em “melancolia ou o desespero do cineasta

  1. Háá. Adorei a última frase, mas até o penúltimo paráfrafo eu podia jurar que você gostou do filme. Ainda não vi, mas tô curiosa. Apesar de que uma mistura de “Dançando no Escuro” (sofrimento feminino ad infinitum) com “O dia que a terra acabou” (nem vi também, mas enfim, esse tipo de filme que pega carona no Tsunami e afins) num style Dogma 95 (câmera-para-vomitar) não me atrai muito. Volto aqui pra comentar mais depois de assistir.

    • Eu diria que Melancolia poderia ser um grande filme se tivesse um cineasta à altura da premissa, que é interessante e corajosa. Porque é um filme concentrado em apenas dois momentos breves da vida das duas mulheres, por isso acho engraçada a análise clínica do filme, a gente mal conhece as duas, são dois fragmentos muito pequenos… Ao mesmo tempo, tem o aspecto grandioso, que vai na contramão do que se pode colocar como cinema de autor das últimas décadas, cada vez mais dedicado às pequenas coisas da vida. Acho fundamental que o cinema de autor ainda se preocupe com o fim do mundo (num sentido literal e metafórico, até porque me recuso a ver Melancolia como filme de tese, o planeta apenas como uma metáfora). Só que aí o Lars von Trier, na hora de filmar, é tudo menos aquele arrogante divertido das entrevistas, ele é covarde, não consegue sequer olhar para as mulheres. Nem desprezo ele consegue demonstrar. Acaba com o filme.

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