claire denis ao vivo


Claire Denis é como uma banda que atinge o seu ápice em cima do palco. Por mais que os discos sejam bons, é no olho por olho que a coisa realmente pega fogo. Há quem acredite que no cinema não exista o aspecto “ao vivo”. Ele existe, é claro. E a obra da cineasta francesa atesta isso.

Seus filmes podem ser vistos em casa, na televisão, no computador, eles continuam bons. Mas uma experiência completa diante de sua obra só acontece, pra valer, na sala de cinema: os olhos grudados na tela grande, o som alto, a película, o escuro. E como seus filmes exigem uma intensidade do espectador, a atmosfera na sala se torna mágica, densa. Após a sessão, a troca de olhares desconcertados. E as impressões contidas. É difícil falar de um filme de Denis.  Na Tailândia, Apichatpong Weerasethakul faz o mesmo. Nos Estados Unidos, Gus Van Sant de vez em quando também faz. Trata-se de cineastas que, no tempo do cinema no celular, ainda valorizam a experiência da sala fazendo filmes que pedem um envolvimento maior do espectador.

Por isso mesmo, dá pra dizer sem engano que a mostra com a obra completa de ficção de Claire Denis em Porto Alegre foi um momento histórico. Em primeiro lugar, por trazer cópias em película para uma cidade terrivelmente acostumada com os pixels na tela. Mas principalmente porque Claire Denis está no auge de sua trajetória, colecionando obras-primas na última década.  Não é todo dia que recebemos visitas assim.  A presença da francesa num debate espetacular de mais de duas horas foi a cereja do bolo.

Boa parte dos filmes de Denis começa como quem não quer nada. Surge um fiapo de história, muitos personagens, cenas que não parecem oferecer uma situação dramática ou então que apresentam um drama sem colocá-lo exatamente como elemento central da narrativa.  Noites Sem Dormir (1994),  por exemplo, entrelaça diversas premissas fortes – assassinatos de idosas, imigrantes em Paris, casais em crise – mas não acende a luz vermelha para nenhuma delas. O mesmo acontece quando Denis se debruça sobre o universo juvenil. O modo como filma uma adolescente grávida em Nenette e Boni (1996) ou a vontade de outra de transar com qualquer um numa festinha em USA Go Home (1994) é de uma maturidade impressionante, ainda mais para quem estava realizando seus primeiros longas-metragens.

Por sinal, cabe dizer que USA Go Home é uma grata surpresa da mostra. Realizado para uma série de TV, o pequeno filme traz os hormônios irrequietos de adolescentes dos anos 1960. O que parece ser apenas um filme correto, até certo ponto distante da obra da diretora, começa a ganhar contornos de obra-prima quando um dos protagonistas, num típico arrombo juvenil, se entrega ao som dos Animals sozinho no quarto, dançando, cantando, pulando. A cena dura toda a canção. Denis, que saca tudo de música e do que a música faz com as pessoas, a filma em apenas um plano. Tudo muito simples e arrebatador.

Falando assim, até parece que é apenas uma questão de colocar a câmera e pronto. Não é. Se o cinema de Denis parece muito mais vivo que a maioria, é porque ela está ali, está muito próxima do que filma. É um detalhe fundamental. Há cineastas que situam – intencionalmente, por incompetência ou falta de coragem – um abismo entre a câmera e o que está sendo filmado. O filme se torna frio. Denis está entre aqueles que sujam as mãos, é cúmplice daquilo que filma. O ponto essencial de sua arte é o encontro muito poderoso entre a câmera e os atores. Quando o cineasta não está ali, o máximo que ele pode fazer com a câmera é filmar. Quando está, ele pode fazer o que quiser.  Nada a ver com câmera na mão ou invencionices,  a câmera não precisa aparecer (no cinema de Denis ela raramente aparece). Estar ali tem mais a ver com o modo como o cineasta quer se relacionar com os personagens. É preciso coragem.

É por isso que Denis consegue realizar, com a mesma sofisticação, filmes tão díspares como Desejo e Obsessão (2001) e 35 Doses de Rum (2008). Se o primeiro presta tributo ao sentimento mais belo de todos – o tesão – com um clímax visceral que poucas vezes o cinema viu, o segundo parte de uma releitura bem particular de Pai e Filha de Ozu pontuada pela serenidade.  Só sabe o tom certo de filmar uma cena em que um homem come (em todos os sentidos da palavra) uma mulher, em Desejo e Obsessão, quem estabelece alguma relação forte com seu personagem. O mesmo vale para a abordagem emocionante da relação entre pai e filha em 35 Doses de Rum. Tal intimidade com aquilo que filma  explica o fato de que as questões delicadas, presentes em toda a obra de Denis, nunca puxam o espectador pela gola da camisa. E se a cineasta faz questão de encontrar poesia num universo barra-pesada, é porque seus personagens sabem que vivem num mundo que comporta o céu e o inferno.

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