críticas de inácio araújo

Tema sem fim é o debate em torno da crítica de cinema. Mas gosto muito do que diz Alain Badiou, me parece uma premissa decisiva: “o crítico deve nos mostrar como o filme o fez descobrir algo que nada além do filme poderia tê-lo feito descobrir”. Cai bem como uma definição para o texto de Inácio Araújo.

Sempre estranhei o fato de não lançarem uma coletânea de textos dele, o próprio formato de suas críticas facilitaria a reunião. Pois agora há.  Na verdade ela existe desde o ano passado, meio escondida (Inácio mesmo falou pouco do livro). Em Porto Alegre só consegui comprar por encomenda. Mas trata-se de um livro obrigatório. A organização de Juliano Tosi é precisa, impressiona a qualidade dos textos selecionados.

Na introdução há uma entrevista com Inácio de 1997. O tópico principal é o papel do crítico de cinema. Só as 15 páginas (o livro tem mais de 700!) dessa entrevista já valem os 15 reais investidos. Nela, Inácio recorre a Roland Barthes para buscar outra definição iluminada sobre a crítica: é pôr em crise.

Coloco aqui uma das críticas presentes no livro, sobre A Moça com a Valise, de Valerio Zurlini. Pois os textos de Inácio sobre o grande cineasta italiano são especialmente belos.

Para Zurlini, o sofrimento é a nossa essência

28 de dezembro de 2002

Valerio Zurlini é possivelmente o diretor de cinema mais triste do mundo. Que isso não desanime, pois, como nos lembra Noel Rosa, saber sofrer é uma arte.

Embora italianos, os protagonistas de A Moça com a Valise parecem mergulhados na frase de Noel.

Ou pelo menos isso é o que acontece com Aida (Claudia Cardinale), bela garota seduzida por Marcello. Marcello é aquele que sabe viver: ganha a garota, marca um encontro e desaparece.

Manda em seu lugar o sensível Lorenzo (Jacques Perrin), irmão menor, que imediatamente se apaixona por ela. Não há razão nesse amor: Lorenzo é quase um menino. Mas quem disse que no amor a razão dá as cartas? É como se Lorenzo visse em Aida o seu duplo feminino, alguém destinado à infelicidade e a transformar a própria infelicidade em beleza.

Porque se há uma coisa que não falta a Zurlini é o sentido da beleza. É, nesse sentido, um clássico. Isso vale para cada plano que compõe. Mas vale, sobretudo, para os personagens que coloca em cena. Claudia compõe uma figura patética com sua valise à mão, indefesa, bela como nunca, à espera de um sacripanta.

A felicidade bate à sua porta. Mas quem disse que os infelizes são capazes de percebê-la? Qualquer um na plateia nota que Lorenzo é mais belo, mais interessante, mais profundo que seu irmão. Bastaria Aida ser capaz de olhá-lo para que a melancolia se dissipasse do rosto do rapaz.

Mas será isso possível? Não, a lógica do melodrama não é essa: a felicidade está ali, ao nosso alcance, e não conseguimos percebê-la. E se conseguirmos haverá um fator exterior a impedí-la. Em Zurlini, como em Douglas Sirk, o sofrimento é nossa essência. Ele aponta nossos limites, nossas fraquezas, ao mesmo tempo que nos redime pela beleza que os rostos de Claudia e, sobretudo, Jacques, exprimem tão enfaticamente.

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