top 10 hou hsiao-hsien

Tenho um amigo que sempre fugiu dos filmes asiáticos contemporâneos. Dizia ele que era puro oba-oba, todos babavam porque era algo de longe, exótico – aquele discurso bobo de sempre. Um dia, meio que por acaso, ele viu Flores de Xangai. Não sabia o nome do cineasta, não sabia nada a respeito do filme. O baque foi tão grande que ele ficou envergonhado. A partir de então, nunca mais desprezou filmes de um cineasta oriental de nome estranho. Principalmente quando o nome estranho é Hou Hsiao-hsien.

Consigo visualizar dois períodos no cinema de Hou, com Bons Homens, Boas Mulheres (1993) marcando uma espécie de transição. Há uma diferença considerável no modo como o cineasta taiwanês (chinês de origem) filma nesses dois momentos. No primeiro, que consiste basicamente na obra dos anos 1980, a tônica parece ser o provérbio chinês favorito do cineasta: “olhar e não intervir”. A câmera está sempre distante, mais do que a gente espera. Ao mesmo tempo, é comum que um ambiente (externo ou interno) seja filmado a partir do mesmo ponto de vista durante todo o filme. Cria-se um laço, não só com personagens – e as primeiras obras giram todas em torno de famílias – mas com as imagens.

A segunda fase começa com o radical Adeus ao Sul (1996). Aqui, surge uma diversidade de imagens, de estéticas – a câmera de  Hou Hsiao-hsien parece querer algo mais que olhar e não julgar.  Sinceramente, não sei se consigo definir o que é. Mas ela interfere, imprime uma poesia diferente da que existe nas imagens dos primeiros filmes. Flores de Xangai (1998) é o esplendor estético dessa nova abordagem. Consequentemente, as tramas se tornam cada vez mais abstratas. Penso que o primeiro Hou é um excelente contador de histórias (o ápice narrativo está em Cidade das Tristezas), o segundo deseja que cada imagem tenha sua própria história.

A obra completa de Hou Hsiao-hsien já esteve à disposição de São Paulo e Rio de Janeiro. Agora é Brasília que ganha a oportunidade de vê-la. Programa imperdível, ainda mais no comecinho do ano, época morta, insuportavelmente quente. Dias perfeitos pra uma tarde inteira no cinema. Aproveitando o gancho, fiz um top 10 com meus favoritos de Hou. Difícil organizar sua obra dessa forma. Posso dizer que  gosto a mesma coisa da maioria de seus filmes.  De qualquer forma, está aí.  

10 –  A Filha do Nilo (1987)

A Filha do Nilo é um pouco apagado na filmografia de Hou Hsiao-hsien, antecipa a trilogia dedicada às turbulências históricas de Taiwan que fez do cineasta alguém enorme no cenário internacional. Aqui,  há a radicalização nos enquadramentos (em alguns momentos a câmera está a três cômodos distante dos personagens) e na abordagem narrativa. O filme mostra, como de praxe na primeira fase do taiwanês, o tempo de amadurecimento da protagonista. Mas aqui é quase tudo construído a partir de elipses, de tal modo que em determinado momento cabe a pergunta: o filme é exatamente sobre o que, sobre quem? Há uma cena marcante que poucos poderiam filmar: a menina está na sala junto com o avô. De repente ele sai pro quintal e volta rapidamente. Ela começa a reclamar do cheiro e ele fica sem graça,  tinha saído para soltar um pum e o vento acabou trazendo o fedor para a sala.

09 – Poeira ao Vento (1986)

Das primeiras grandes obras de Hou Hsiao-hsien, é aquela que explora mais provérbio chinês que o cineasta gosta de citar: “olhar e não intervir, observar e não julgar”. A vida de uma família através dos tempos-mortos, da câmera com uma distância quase impessoal da ação. Em Poeira ao Vento, o modo etéreo como Hou olha para o ambiente em que a história se passa parece introduzir o que Apichatpong Weerasethakul faria de mágica nos anos 2000. Beira o sensorial.

08 – Bons Homens, Boas Mulheres (1995)

Embora termine uma trilogia, a impressão é que se trata de um filme de transição. Se a imagem era elemento destacado em Cidade das Tristezas (as fotografias) e, principalmente, em O Mestre das Marionetes (o espetáculo com os bonecos que conta a história do país), aqui quem aparece é o imaginário. Parece deixa claro que só assim certas nuvens escuras da história de Taiwan podem ser representadas.

07 – Três Tempos (2005)

O primeiro filme de Hou que vi foi Millennium Mambo (2001). Não gostei. Revi e continuo não gostando muito. A impressão é que a troca de influências entre o taiwanês e Wong Kar-wai funcionou melhor para o segundo. Para mim, Três Tempos foi uma espécie de redenção, me fez querer ver as outras obras do cineasta.  Também é um filme mais comportado, apesar da estrutura narrativa fragmentada.  Na primeira das três partes, retratada nos anos 1960, há um lirismo pouco visto em sua filmografia. A presença da canção Smoke Gets in Your Eyes, dos Platters, remete à obra-prima The Terrorizers (1986) do amigo e conterrâneo Edward Yang, morto precocemente em 2007. Abre o filme de forma impecável.

06 – Café Lumière (2004)

O filme japonês de Hou. Parte da homenagem a Yasujiro Ozu para chegar no abstrato. Faz par interessante com o ainda mais abstrato Cinco, de Abbas Kiarostami, no sentido de mostrar como a referência de Ozu é obrigatória para o cinema contemporâneo. E uma referência desconcertante, pois revela filmes que, a princípio, nada tem a ver com a obra do mestre japonês.

05 – Tempo de Viver e Tempo de Morrer (1985)

Hou Hsiao-hsien gosta de colocar seus personagens diante do sentimento de perda. É o momento de crescer, de aceitar riscos, assumir papéis. O mais bonito é que o cineasta não precisa optar por catarses narrativas para que isso seja mostrado, pelo contrário: o amadurecimento do protagonista é sempre suave, construído em cima de silêncios, de olhares duradouros. Tempo de Viver e Tempo de Morrer tem uma cena mágica, quando os filhos carregam a mãe doente para um transporte. Hsiao-hsien conseguiu imprimir nessa cena a sensação que seus personagens estavam vendo a mãe pela última vez.  Sem close, primeiro plano, só com a interminável imagem de um carro partindo. Coisa de gênio.

04 – Adeus ao Sul (1996)

Na primeira vez em que vi o filme, pensei em Marguerite Duras, justamente pelo modo como o fora de quadro é trabalhado. Na segunda vez, não saiu da cabeça a idéia de um cinema essencialmente pós-moderno, não no sentido comum que costumam empregar, mas na idéia original do termo: algo que escapa de qualquer camisa de força. A impressão é que em Adeus ao Sul cada cena existe para anular qualquer suporte teórico que justificaria a anterior num contexto de cinema autoral. Em uma palavra: livre.

03 – A Viagem do Balão Vermelho (2007)

O elogio da imagem.  Em um primeiro momento, parece que o filme é sobre o cinema, principalmente pela referência ao balão vermelho do clássico de Albert Lamorisse. Um olhar atento logo observará que o balão vermelho de Hou Hsiao-Hsien não tem absolutamente nada a ver com o de Lamorisse, cuja personalidade é mais provocadora e brincalhona. Aqui, o balão é um ser melancólico e abandonado.  Se há alguma relação, é entre o balão de Lamorisse e a câmera de Hou, que parece flutuar curiosamente em busca de seus personagens. A Viagem do Balão Vermelho é uma viagem pela história da imagem, ali está o homem e sua necessidade eterna de produzir imagens, seja com o próprio reflexo no vidro, no show de marionetes chinês, no desenho, na pintura, no cinema, no super 8 familiar ou na câmera digital. Não é à toa que Hou Hsiao-Hsien termina seu filme num museu, lugar em que o olhar imagens é sagrado. Obra-prima.

02 – Cidade das Tristezas (1989)

Tudo começa com a esperança: o retorno da luz, um nascimento e a derrota japonesa. Sinais de um futuro próspero que rapidamente se esvaem. Pois Cidade das Tristezas é um filme de horror. O grande personagem é um terror silencioso, as entrelinhas de um período político conturbado da história de Taiwan. Uma lição de como usar as elipses para colocar em cena o irrepresentável. Foi o filme que trouxe os holofotes ao cinema de Hou Hsiao-hsien. E certamente é seu melhor momento como contador de histórias.

01 – Flores de Xangai (1998)

A redefinição do cinema de poesia em 37 planos. Daquelas obras-primas que não merecem palavras. É ver para entender a famosa declaração de Hou Hsiao-hsien: “eu não desejo contar histórias, meu desejo é antes criar climas, ambiências”. A frase não pode ser aplicada cegamente a todo o cinema do taiwanês, mas aqui ela cabe perfeitamente. Não seria exagero pensar em Flores de Xangai como o grande filme dos anos 1990.

 

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5 respostas em “top 10 hou hsiao-hsien

  1. Só ontem consegui ler a Teorema 16. Li teu artigo sobre Rohmer. Bom. Estou preparando um dossiê sobre o mestre, também. Descobri teu blog pela revista, e gostei do conteúdo, Leonardo.

    Do Hsiao-hsien, meu favorito é o Balão Vermelho, de longe.

    Abs!

    • Legal que curtiu! Quando publicar o dossiê, dá um toque.
      “A Viagem do Balão Vermelho” já foi meu favorito, às vezes volta a ser. É um filme iluminado. Entra fácil na minha lista de melhores da década de 2000.

      Abraço!

    • É verdade. Pelo menos o Rohmer era organizado, aí é mais fácil (ou não, também pode ser uma armadilha) olhar para sua obra. Tarefa dura deve ser fazer um dossiê do Chabrol, tem filme pra tudo quanto é lado.

      Da sua lista, também coloco “Elogio do Amor”, do Godard. Do Apichatpong, eu ainda fico com “Síndromes e um Século” no lugar de “Mal dos Trópicos”. Pra mim é o grande filme dos anos 2000.

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