vincere

Vincere é uma obra grandiosa. Não poderia ser de outra forma, o cineasta italiano Marco Bellocchio está olhando para um personagem grandioso: Benito Mussolini, alguém que dificilmente permitiria uma abordagem intimista. É o que o filme nos indica desde o início, com os três atos que introduzem passagens juvenis do futuro líder fascista. Primeiro ele desafia a Deus, depois encara a polícia, por fim conquista uma mulher. Em apenas três cenas temos a dimensão exata de um personagem mítico.

Com o desenrolar do filme,  Mussolini vai se tornando um protagonista-fantasma. Bellocchio não segue sua trajetória, mas sua presença é sempre forte. A ascensão fascista na Itália é mostrada através do calvário de uma mulher: Ida Dalser. No início, ela acaba acompanhando, meio que por acaso, momentos emblemáticos do jovem Mussolini, a “evolução” política do homem. E se apaixona perdidamente.

Talvez num primeiro indício de obra-prima, temos o contraponto entre a paixão do olhar daquela mulher e a violência dos atos de Benito Mussolini. A consumação da atração imediata entre os dois acontece na cama – numa transcendental cena de sexo, silenciosa, dura, seca.

A cena de sexo não deixa de ser um belo prólogo da tragédia que Ida Dalser viverá. Pela primeira vez no filme, Mussolini se encontra num papel de submissão, o sexo é comandado pela mulher. A transa não explode até que ele fique por cima. Em outro momento, Ida resolve emprestar dinheiro a Mussolini. Ele demora a aceitar, não o faz antes de tentar controlar a situação.

Bellocchio explicita, desde o início, que Ida é tão poderosa quanto ele. Por isso mesmo precisará ser eliminada. Pra piorar, acaba grávida.  Seu inevitável martírio ganha corpo ao longo do filme: o passar das cenas oferece, cada vez mais, a certeza de que seu desfecho será trágico.

O diálogo entre Ida e um psiquiatra revela seu verdadeiro drama: “você tem que ser uma mulher fascista comum, submissa”, diz ele. Esse papel cabia a esposa oficial de Mussolini. Ida Dalser nunca poderia representá-lo. Aqui, em outro momento espetacular, a conversa com o psiquiatra antecipa uma sessão de cinema no hospício. O filme é O Garoto, de Chaplin, na cena emblemática em que o menino é levado pela polícia. Distante do filho, ela se desmancha diante das imagens de Chaplin. A sequência toda é de arrepiar.

Da mesma forma, também emociona a derradeira imagem de Ida, quando ela se vira dentro de um carro e encara o espectador por alguns segundos. Pois a obra é toda construída a partir do olhar de Ida Dalser. Se num primeiro momento ele é forte, interessado naquele homem astucioso; no fim o olhar é amortecido, de um desespero quieto, mas cheio de dignidade.

Em Vincere, Bellocchio parece redefinir o filme histórico. Dá conta do período mais importante da Itália do século vinte e, ao mesmo tempo, olha no olho de seus personagens. Não é pra qualquer um.

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7 respostas em “vincere

  1. quando se percebe todas as pessoas com um gosto cinematográfico de respeito louvando um filme que você detesta é hora de começar a duvidar do próprio bom gosto. mas, putz, que filme CHATO. (prontofalei)

    • Haha, será que é um problema feminino com o filme? A primeira vez que vi, fui com uma amiga. Ela não gostou. Eu saí da sessão bem empolgado com o filme, ela não tava nem aí.

  2. O problema é que não vejo nada ali além de uma cinebiografia clichê com direito à drama presidiário feminino. O filme tem alguns planos bonitos, mas o drama é fraco, pegajoso. E o que é aquela explicação sobre o condenamento dela em frases escritas na tela cujas letras vão “saltando” de uma máquina de escrever?? Deus! Aquilo pra mim é um atestado de que o cara não conseguiu resolver o filme com CINEMA. E começar o filme com uma cena de sexo, vamos combinar! Não é pra qualquer um, mesmo. Tem que ter muito bom gosto, tem que ser no mínimo um Godard. Achei um filme quase… bagaceiro!

  3. Pode ser que seja um problema feminino, porque estamos cansadas do DRAMA DA MULHER INJUSTIÇADA no cinema. Chega, sabe! Não acho que ele consiga olhar nos “olhos” da personagem da feminina, acho que ele consegue olhar só para a questão da genitália oprimida. O que é a cena dela subindo nas grades, desesperada, invejando as pessoas em “liberdade”?? PQP! É clichê DEMAIS, Leo. EStou começando a achar que pra fazer um bom flme sobre sofrimento feminino tem que ser gay. Fassbinder faria muito melhor. Almodóvar também.

    • É, não sei. A gente encontrou filmes diferentes. Gosto muito do modo como ele amarra as situações, inclusive as intervenções textuais, acho extremamente cinematográfico e ainda sustenta o tom épico do filme. Não consigo enxergar mesmo uma cinebiografia clichê. Pra mim trata-se de um filme oposto. Quando ele coloca o mesmo ator fazendo o Mussolini e o filho, principalmente na cena em que o filho imita os trejeitos do pai, há uma ruptura muito forte. Ele ressalta que o filme é sobre a ficção. Não por acaso, as imagens estão sempre presentes. E o próprio Mussolini passa a ser imagem a partir de certo momento.

      Quanto à questão feminina, aí o olhar é diferente mesmo. Mas não acho que seja um drama da mulher injustiçada, pra mim o Mussolini não deixa de ser protagonista em nenhum momento do filme. Não vejo o drama do filme num contexto masculino X feminino. Aliás, pra mim Vincere tá mais pro filme de guerra do que pro drama.

      Mas é um ponto interessante: será que é um filme masculino? Nem acredito nessas separações de gênero, mas é curioso, todos os defensores do filme que conheço são homens.
      E poxa, o Fassbinder é o cineasta mais macho que existe!

  4. Hahahah. É, de fato. Fassbinder é um gay macho. Mas ainda acho que o filme é da Ida, não do Mussolini (ponto de vista feminino?). Talvez o filme que você viu (onde Mussolini é o centro) seja melhor que o que eu vi. Gostei desse seu ponto da ficção ser central. Apesar de minha implicância com a natureza da trama e dos “entrelaçamentos” (não tenho nada contra interferências textuais, mas achei esta, espepecificamente, em “courier new” ou coisa que o valha, brega), gosto dessa presença das imagens no filme, inclusive uma cena que me marcou é mostra a imagem de Ida caminhando (entre “homens”) e se misturando a uma tela de projeção, num contra-plongé lindo. É um filme também elegante em alguns sentidos estéticos, entendo bem o seu ponto, mas não entendo tanto “entusiasmos” (e, realmente, sempre por parte dos homens). Eu não creio nas divisões de gênero também, mas que elas existem, existem (estão aí, no “empirismo” das discussões).

    P.S. Já vistes a Hora da Religião?

  5. Na literatura as divisões de gênero (no sentido de “preferência”) acho que existem. Exemplo: conheço só uma mulher que gosta de Hemingway; grande Amanda Lauschner, por sinal 😉

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