copie conforme

Diante de Cópia Fiel, os iniciados na obra de Abbas Kiarostami não conseguem esconder a surpresa. Buscam as conexões com filmes anteriores, mas admitem que se trata de um Kiarostami diferente. Para um espectador acostumado com a alta dose de invisível da obra do iraniano, seu mais novo filme assusta. Pois a impressão é a de que vemos tudo.

Lá pelo meio do filme, quem aparece é Jean-Claude Carrière, no papel de um simpático velhinho. Notável colaborador de Luis Buñuel nos anos 1960 e 70, talvez ele esteja ali para lembrar que, assim como nas obras do espanhol, há uma transparência do absurdo. Pois o mais chocante do cinema de Buñuel é que tudo acontecia na cara. Diante dos nossos olhos, o mundo ruía.

Em Cópia Fiel, temos um casal que se constrói artificialmente de uma hora para a outra. Eles estão juntos, homem e mulher, portanto são vistos como casados. A mão no ombro, o sorriso, o hotel da noite de núpcias: um casal como qualquer outro. E vemos tudo isso sem um suporte firme. Ninguém está louco. As coisas simplesmente acontecem.

Claro que a distância do Irã, cenário que contribuía para realçar o surpreendente nas obras de Kiarostami, ajuda na sensação de pés no chão. A presença de Juliete Binoche também. Mas não é esse o motivo que faz Cópia Fiel parecer um filme mais acessível. Basta lembrar que a própria Binoche protagonizou a primeira obra européia do taiwanês Hou Hsiao-hsien, A Viagem do Balão Vermelho. E não deixa de ser experiência fortíssima, um cinema de ruptura, que assusta o espectador mais acorrentado. Não é, portanto, a Europa e o sorriso mágico de Binoche que garantem o abraço fácil no filme.

Pois esse é o ponto. Talvez seja o primeiro filme de Kiarostami que consegue cativar qualquer tipo de espectador. Se outrora o cineasta pedia para que encarassem suas obras como um poema ou uma pintura, Cópia Fiel parece exigir que o encarem apenas como um filme. Na sessão em que fui, o cenário era incomum para uma obra do iraniano: sala lotada, pipocas aos montes e gargalhadas durante toda a projeção. Ninguém abandonou a poltrona. Por fim,  os comentários empolgados refletiam os entendimentos do que pareceu ter sido uma comédia romântica.

Me parece uma etiqueta perigosa. Há quem tenha gargalhado na cena em que a personagem de Binoche se maquia no banheiro. Trata-se de um momento pesadíssimo, a imagem definitiva dessa mulher fragilizada. Se em muitas cenas o filme parece engraçado, é porque ele se dedica ao desespero do dia-a-dia,  aquele que aparece nos detalhes, que não deixa de apresentar ocasiões divertidas. Mas Cópia Fiel é bem delicado, todo o encaminhamento do desfecho é muito forte.

Mesmo construindo uma personagem impactante, o filme tem problemas. É uma pena que Kiarostami tenha resolvido encher sua obra de didatismos. O filme se ensina ao espectador. O passeio de carro é acompanhado pela teoria sobre o passeio de carro, assim como a relação entre cópia e original acaba sendo colocada em prática pelo casal. Poderíamos ter uma obra-prima, um filme atordoante, se o relacionamento ficcional entre os dois protagonistas fosse construído sem as referências sobre verdadeiro e falso, feitas ao longo do filme. Nesse sentido, Cópia Fiel soa ingênuo, um filme que faria bonito há quarenta anos, de tese bem aplicada, mas que parece ultrapassado ao lado do cinema contemporâneo – incluindo aí os próprios filmes de Kiarostami.

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