o jardim de rivette

Às vezes me pergunto por que gosto tanto de cinema, o que ele tem de tão especial? E sempre retorno à mesma idéia: o cinema consegue reunir o retiniano puro, o sensorial, com a intensidade narrativa, o intelectual; exige do espectador um abraço tão instantâneo quanto duradouro. Mas não é só isso. O mistério não termina aí e a questão se mantém: pra que tanto cinema? pra que ver tantos filmes?

Eis que surge o jardim de Jacques Rivette. O desfecho, o momento em que o cineasta coloca sua assinatura na obra-prima A Bela Intrigante, de 1991. Pois é diante de uma cena como essa que entendo porque preciso ver cinema. A impressão é que, depois de uma longa odisséia sobre a criação, mas a criação de uma pintura – os paralelos devem ser feitos, mas há uma diferença enorme entre a criação da pintura e a criação cinematográfica–, Rivette tenha sentido a necessidade de colocar o cinema, apenas ele, em cena.

Nesse momento, o cineasta deixa bem claro, por exemplo, que raios é a tal da mise-en-scène – é clichê, mas não há como fugir: se trata de uma lição, digo por mim, a melhor aula que já tive sobre cinema. Recorro às palavras de Jacques Aumont: “na mise-en-scène, há sempre uma parte de coreografia, ou seja, de domínio total dos movimentos num espaço definido (…) há também a parte do mistério e que é simplesmente a marca pessoal do cineasta, o jogo do seu olhar – sem regras a priori a não ser a da expressão, do charme, da elegância, da medida, em suma, sem outra regra que não a da arte”. O jardim de Rivette.

O impacto da cena, a ceia no jardim após o término da jornada criativa que tirou tudo do lugar na relação entre os personagens do filme, remete imediatamente à Guernica, embora o desespero, protagonista cruel no quadro de Picasso, seja quase invisível, sutil em Rivette. Mas está lá, disfarçado entre sorrisos gratuitos, palavras jogadas ao vento, brindes, tapinhas nas costas e um vai-e-vem interminável, culminando no rosto impassível de Marianne. Estamos diante dos destroços silenciosos de cada um. E da impressão de que o cubismo tem seu esplendor no cinema.

Essencialmente, se trata de uma cena de entradas e saídas. No movimento constante dos personagens, embora não pareçam sair do lugar, Rivette redesenha a relação entre tempo e espaço. Se ainda escapam perguntas óbvias – qual o tamanho daquele jardim, quanto tempo dura aquele momento? – Rivette nos responde com uma palavra mágica: o cinema.

Pois o jardim de Rivette é um dos mais belos monumentos ao mistério do cinema. Coloca o espectador na mesma situação dos personagens: em destroços. E mostra que A Bela Intrigante é muito mais que um filme sobre o ato da criação.

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