bonnie & clyde

O que acontece quando duas das personalidades mais bombásticas de um país se encontram? No caso da França dos anos 1960, a resposta está entre orgasmos múltiplos e um disco chamado Bonnie & Clyde.

De um lado Serge Gainsbourg, hoje visto pelo mundo como uma das facetas definidoras do imaginário francês; romantismo e sacanagem na dose certa. Entretanto, até a segunda metade da década de 1960, ele não havia conseguido se destacar em meio à invasão pop do yé-yé-yé. O primeiro grande hit composto por Gainsbourg só foi acontecer em 1966 com Poupée de Cire, Poupée de Son, entoada pela gracinha ingênua France Gall. Diz a lenda que depois de perceber o teor erótico das canções presenteadas pelo compositor – principalmente a safadíssima Les Sucettes – a loirinha adolescente ficou horrorizada e nunca mais quis saber de Gainsbourg.

Entende-se. Para aguentar seu erotismo classudo, era preciso uma supermulher. Eis que do outro lado surge Brigitte Bardot; grande musa do cinema francês, como diz uma amiga: a bunda mais bonita do mundo sob um filtro vermelho. B.B, como era conhecida na época, encantara a porção masculina no mundo em 1957, quando estrelou E Deus Criou A Mulher, de seu então marido Roger Vadim. Bardot seguiu pela década de 1960 dando o ar da graça em outros filmes significativos (em especial O Desprezo, de Godard), além de gravar alguns singles de música pop.

O grande encontro entre Serge e Bardot só foi ocorrer em 1967 no programa do cantor Sacha Distel. A coisa esquentou rapidamente. “Toda a vez que eu ponho a camisa, ela tira de novo!” Resignava-se Serge. Na época Bardot estava vivendo um período turbulento do seu casamento com Günter Sachs. Gainsbourg apareceu na hora certa.

Na verdade, os dois se conheceram bem antes, trabalharam juntos em Você Quer Dançar Comigo?, comédia de Michel Boisrond de 1959. Bardot, inclusive, já tinha gravado duas canções de Gainsbourg em 1965, a divertida Bubble Gum e L´Appareil à Sous, além de fazer parte da mesma gravadora, a Phillips.

Mas foi só em 1967 que a coisa realmente pegou fogo. O encontro casual no programa de Sacha Distel rendeu tórridas noites de amor e algumas lendárias gravações da música pop francesa. As noitadas às escondidas, já que a casada Bardot odiava os paparazzi (Gainsbourg, pelo contrário, adorava aparecer em todos os lugares), se intensificaram quando o compositor foi convidado pela moça para participar de seu programa Le Bardot Show. Serge Gainsbourg achava que tinha encontrado a mulher de sua vida.

E foi pouco tempo depois, em 1968, que apareceu o filho mais interessante das noites quentes: Bonnie & Clyde, cuja capa remetia um pop-psicodélico à la Swingin´London, mas de canções apaixonadamente dionísicas. Embora pareça completamente distante das questões políticas que pararam a França naquele ano, Bonnie & Clyde tem muito do hedonismo poético que também estava entre os dentes dos jovens franceses. O amor, afinal, era tão importante quanto a revolução.

O disco trazia apenas duas músicas interpretadas com as vozes em laço. As outras, quase todas de autoria de Gainsbourg, foram pinçadas dos respectivos repertórios solo. Das canções em dupla, a faixa-título, de sensualíssimo clima noir, agraciada pela voz grave e ameaçadora de Bardot, e Comic Strip, uma colagem à francesa de onomatopéias pop. B.B. irresistível gemendo em “Pow!”, “Bang” e “Wizz”.

Entre as músicas cantadas apenas por Serge, destacavam-se Intoxicated Man, definida na época como o tema de James Bond reescrito por Baudelaire; o ye-ye-ye garage Dr. Jekyll & Mr. Hyde; a climática L´eau a La Boche – embalada por ritmos africanos (algo que ele já tinha feito no disco Gainsbourg Percussions, de 1964) e a bossa estilizada Baudelaire. Já no repertório de Bardot, aparecia a divertida e já conhecida Bubble Gum e três pérolas não escritas por Serge. Encantadoras as baladas La Madague e Un Jour Comme Autre (não confundir com a música de mesmo nome gravada por Anna Karina no musical Anna, com direção musical de Gainsbourg), de Gerard Bourgeois e Jean-Max Riviere.

A musa francesa surgia na sua persona mais sexy debochando os versos de Everybody Loves My Baby, famosa com Louis Armstrong: “everybody loves my baby, but my baby loves nobody but me”. Palavras que soariam mais precisas na voz de Gainsbourg, direcionadas à Bardot, musa desejada pelo mundo inteiro, e – apesar das crises – casada.

Foi por causa do casamento que a parceria – amorosa e musical – ruiu. Na mesma noite em que compôs a canção Bonnie & Clyde, Serge terminou outra preciosidade intitulada Je T´aime… Moi Non Plus. As duas canções nasceram depois de uma briga com a musa no dia anterior. Serge e Bardot gravaram a segunda canção em uma explosiva sessão (quando os dois praticamente transaram na cabine do estúdio) e o resultado foi um escândalo pop que tinha tudo para ganhar o mundo. No entanto, a versão com a dupla foi recolhida pouco depois de ser lançada em single. Gunter Sachs ficou revoltado com os rumores por trás do single e a própria Bardot, que era avessa a escândalos, achou a gravação muito vulgar. Je T´aime… Moi Non Plus só seria retomada (e com estrondoso sucesso) um ano depois em outra versão, gravada com a inglesinha maravilhosa Jane Birkin.

Após os problemas com a canção, a parceria entre os dois foi pro espaço de vez. Bardot voltou para os braços do marido e Serge quase entrou em depressão. A paixão era tanta que o quarto de sua casa (ele ainda morava com os pais) era coberto de fotos da musa. Ainda em 1968, ele lançou o disco-coletânea Initials B.B, cheio de referências à mulher amada. Um amor tão grande que só poderia ser definido pelas notas escritas por Serge para a contracapa de Bonnie & Clyde:

“Estas canções, minhas e de Bardot, são acima de tudo canções de amor, amor violento, amor passional, amor físico, amor fictício, amorais ou imorais, não importa. São total e completamente sinceras”

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Texto bastante revisado, publicado originalmente na Freakium.

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