salto no vazio

Antropometrias da época azul, de 1960.

Um dos mais espirituosos comentários sobre Yves Klein está num diálogo do filme O Amigo da Minha Amiga, de Éric Rohmer. Na cena, a jovem protagonista lamenta que em sua vida só aparecem homens burocratas. Ela diz:

Talvez eu queira o impossível, não sei.  Na realidade, eu precisava de um artista de verdade, de um verdadeiro espírito artístico, mas com a aparência de um jovem executivo dinâmico. Enfim, estou sonhando.

Sua amiga então responde:

Isso já existiu. Conhece o Yves Klein?

Yves Klein era o homem-espetáculo dos Novos Realistas. Não à toa, acabou centralizando todos os holofotes em torno dele. Hoje, muita gente nem lembra (ou sabe da existência) daquele grupo de artistas, mas Yves Klein permanece como uma forte referência da arte francesa do pós-guerra. Foi um artista que conseguiu imprimir um tom mítico em praticamente tudo que fez, das pinturas monocromáticas ao tom de azul patenteado, da lendária exposição Le Vide, que consistia numa galeria de arte absolutamente vazia (Camus apareceu e deixou no livro de presença: “com o vazio, plenos poderes”), à emblemática fotografia de Klein pronto para voar, da sinfonia de uma nota só às pinturas feitas com lança-chamas e corpos de mulheres nuas.

Com a palavra, Yves Klein: “pessoalmente, eu nunca tentaria espalhar tinta sobre o meu próprio corpo e me tornar um pincel vivo; ao contrário, preferiria vestir o meu smoking e usar luvas brancas. Não pensaria nem mesmo em sujar minhas mãos com tinta. Desapegado e distante, o trabalho de arte precisa se completar diante dos meus olhos e sob o meu comando. Portanto, logo que a obra está realizada, permaneço ali – presente na cerimônia, imaculado, calmo, relaxado, digno dela, e pronto para recebê-la como ela nasceu no mundo tangível”.

No fim, a persona de Klein é impossível de ser desassociada de sua arte. A trajetória meteórica ainda confirma as palavras de Jean Tinguely, de que o espetáculo só é realmente um espetáculo quando tem vida curta. Yves Klein morreu em 1962, aos trinta e quatro anos, no auge de sua efervescente carreira.

Yves Klein e seu lança-chamas em ação.

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