power to the nanas!

Niki de Saint Phalle prestes a atirar em sua tela.

Entre os Novos Realistas, Niki de Saint Phalle foi aquela que levou aos extremos a idéia de espetáculo. Na pintura abstrata, apostou nos tiros em direção à tela. Tamanha violência acompanhava as palavras da artista: “eu atiro no papai, em todos os homens, em todos os homens importantes, nos homens gordos, em meu irmão, na sociedade, na igreja, no convento, na escola, na família, na minha mãe…”

É sabido que Saint Phalle teve uma infância bastante traumática. A arte apareceu em sua vida, inclusive, durante uma temporada no hospital. A expulsão dos fantasmas continuou nos anos 1970, quando ela realizou o raro longa-metragem Daddy, que traz a história de uma criança abusada pelo pai. No início de 1960, a tela parecia ser a sua principal válvula de escape.

Por mais que a imagem de uma ruiva graciosa e sorridente compondo pinturas abstratas através de tiros seja algo inesquecível, prefiro o desenrolar de sua carreira nos anos seguintes. A violência escancarada deu lugar às Nanas, psicodélicas esculturas de figuras femininas estilizadas. Como descreveu Pierre Restany: “barrigudas, carnudas e triunfantes”.

Os tiros na tela são o retrato de uma época, é claro. É preciso ter o contexto para abraçar aquilo. E esse é o perigo: muito dessa postura contracultural típica dos anos 1950/60 continua sendo replicada em várias esquinas. O que fica é apenas o gesto, e um gesto vazio. Acontece o mesmo, por exemplo, com o emblema Seja Marginal, Seja Herói, de Hélio Oiticica. Fora do contexto, é uma idéia extremamente perigosa para se cultuar em nossos dias.

Hoje, aprecio a subversão pela sutileza. Abordar um tema tabu com suavidade pode ser mais contundente. Já está tudo tão escancarado no mundo, é preciso um pouco mais de invisível. É por isso que as Nanas de Niki de Saint Phalle permanecem como obras-primas da arte contemporânea. Naturalmente, ainda mais pela postura da artista, elas se tornariam estandartes do feminismo nos anos 1960. Mas se há um tom decisivo nas obras, é o do feminino. Saint Phalle, por sinal, recusava convites de publicações sobre “a arte de mulheres”. Sábia, ela compreendia que isso é uma tremenda ficção.

Foi na Suécia, em 1966, que Saint Phalle realizou a sua Nana mais impressionante. Hon, construída em parceria com Jean Tinguely e o escultor sueco Per Olof Ultvedt, tinha 27 metros de comprimento e se apresentava em posição de parto. A porta, sua enorme vulva, ficava aberta para quem quisesse se aventurar. Dentro, hostess introduziam os três andares com direito a bar, planetário, terraço panorâmico, carrossel, cinema, túnel do amor e cabine telefônica.

Hon foi certamente o maior dos espetáculos dos Novos Realistas. A idéia de entrar dentro da obra – e que idéia incrível, exigir do espectador o caminho inverso da vida para encontrar dentro da figura feminina um mundo maravilhoso –, ressaltava um dos pontos fundamentais do grupo francês: oferecer um espetáculo, mas exigir a participação ativa e decisiva do espectador. Por sinal, naquela década, o entrar na obra, literal ou não, se tornou questão de vida ou morte. Saber se relacionar com o espetáculo também.

Power to the Nanas: Hon, o espetáculo de Saint Phalle no Museu de Estocolmo em 1966.

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