tinguely, demiurgo da fantasia mecânica

Niki de Saint Phalle e Jean Tinguely, a dupla dinâmica dos Novos Realistas

Em seu ótimo livro sobre Robert Rauschenberg, Calvin Tomkins recorre a um artista do outro lado do Atlântico para introduzir a década de 1960. Uma tarefa desafiadora. Afinal, como dizer, o que destacar para simbolizar o início daqueles anos pródigos em tantas coisas, ainda mais em se tratando de arte. Preciso, Tomkins narra a epopéia que o artista suíço Jean Tinguely realizou nos jardins do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque no ano de 1960.

A obra em questão é a famosa Hommage à New-York, grandiosa engenhoca recheada por bicicletas, carrinhos, rádios, uma máquina de lavar, pequenas obras de artistas amigos e até um piano de cauda. Foi produzida por Tinguely durante três semanas. Hommage à New-York se auto-destruiu em trinta minutos para espectadores extasiados, mais ou menos como aqueles que urravam ao ver o The Who quebrar o palco inteiro. Não à toa, entre dentes raivosos e abraços cheios de cinismo e genialidade, o espetáculo foi uma questão central  naqueles anos. Mais que existir, as coisas precisavam acontecer.

Apesar de alguns momentos de destruição, como é o caso de Hommage à New-York, que hoje existe apenas em registros, recordações e na história, Tinguely conseguiu manter sua obra, com autoridade, nessa corda bamba. O grosso de sua criação consegue se manter tanto em existir, quanto em acontecer, entre o instante do happening e a solidez do objeto de arte tradicional.

A solidez: suas esculturas cinéticas, herança de Marcel Duchamp levada às últimas consequências, são máquinas extremamente estéticas, ou seja, cumprem o papel de uma escultura, mesmo que em seu bailado mecânico e desajeitado estejam longe de qualquer modelo tradicional. Não por acaso, várias obras de Tinguely respiram tranquilas em espaços públicos. Apesar da recorrência de materiais do cotidiano, não se tratam de ready-mades. Existe, pelo contrário, um enorme trabalho de transformação estética.

O instante:  as esculturas também são objetos vivos, estão sempre jogando com o imprevisível. Tinguely trabalha exatamente com essa via dupla, a relação entre o ser e o acontecer, um objeto que pode ser olhado, mas que também devolve o olhar. O espetáculo, no caso, não é promovido diretamente pelo artista, mas pela obra. Como sentencia o próprio Tinguely sobre a sua Hommage à New-York: “é essa máquina que faz o espetáculo e ela precisa se auto-destruir, pois uma vida longa não é espetáculo”. 

Quando o crítico francês Pierre Restany decreta, em 1960, a existência do Novo Realismo – reunindo figuras distintas como Yves Klein, Arman, Martial Raysse e Tinguely –, ele observa que o grande parentesco entre os artistas é o espetáculo da metamorfose do cotidiano. Essa turma genial realmente conseguia reunir as duas tendências, algo que ainda começava a se aproximar nos Estados Unidos. Havia a metamorfose do cotidiano, por exemplo, nos trabalhos de Rauschenberg e Jasper Johns, e os happenings teorizados e eletrificados por Allan Kaprow.

Para os Novos Realistas, além da obra em si, o espetáculo era essencial. Isso explica a recorrência de grandes atos, a partir do final dos anos 1950, como as pinturas de Yves Klein feitas com lança-chamas e corpos de mulheres nuas, os tiros de tinta nas telas de Niki de Saint Phale e os incríveis Métamatics de Tinguely, máquinas construídas para produzir pinturas abstratas. Há, é claro, uma grande dose de ironia nisso tudo. A arte abstrata, saudada durante a década de 1950 como um grande gesto de sensibilidade, era realizada sob o filtro de coisas suaves como lança-chamas e espingardas.

No caso de Tinguely, a provocação soava ainda mais contundente. No fundo, Yves Klein e Niki de Saint Phalle apenas trocaram o pincel por outros meios. O homem ainda era o dono da sensibilidade. Já nos Métamatics de Tinguely, é a máquina que produz, sozinha, o abstrato. A máquina como matéria-prima de sensibilidade. Nessa fina ironia, Tinguely dialoga novamente com as idéias de Duchamp.

A principal luta de Marcel Duchamp foi contra a ausência de idéias na arte.  Para ele, sensibilidade era, acima de tudo, pensar. A obra de arte deve ser um resultado de uma busca intelectual. Em outras palavras: consciente. Foi por isso, como definiu Pierre Cabanne, que ele acabou trocando a “pintura-pintura” pela “pintura-idéia”. Com os Métamatics, Tinguely mostra que a sensibilidade à flor da pele do Expressionismo Abstrato, no fundo, podia ser feito por uma máquina, um objeto sem coração.

É lógico que o Expressionismo Abstrato não pode ser visto como um corpo fechado. Nem todos os pintores realizavam obras “espontâneas” ao modo de Jackson Pollock. É o caso de Willem de Kooning, por exemplo. Mas foi essa a grande idéia vendida. Harold Roserberg clamava pela tela como uma arena, o artista deveria agir. Tudo que Duchamp desprezava, essa imagem do pintor como uma fera em ação, “la bête”.

Um grande problema dessa concepção de arte é que o espectador acaba vendo apenas o resultado da ação. A melhor coisa num quadro de Jackson Pollock seria, na verdade, vê-lo pintar. O diferencial em Tinguely – e em diversos momentos dos outros Novos Realistas – é que a ação está na obra e não restrita ao ato criativo. Porque as máquinas de Tinguely estão tanto na esfera da escultura-idéia, quanto na esfera da ação, do happening, do espetáculo puro.

Nesse ponto, Tinguely mostra que o artista pode ser intelectual, o homem das idéias, sem abandonar a mágica. Ele pode ser o gênio e a besta. O efeito catártico de suas obras é inegável, nâo à toa faz tanto sucesso com crianças, que se entregam aos ruídos, aos movimentos, ao lúdico das máquinas cheias de vivacidade. De Restany, a definição é perfeita: “Tinguely é um colossal demiurgo da fantasia mecânica”.

Abaixo, vídeo de um abusado Métamatic, obra de 1959. 

Aqui a grandiosa Méta-Harmonies II, de 1979. No primeiro vídeo, a visão geral da obra. No segundo, uma edição com os pequenos detalhes de suas entranhas.

Anúncios

Uma resposta em “tinguely, demiurgo da fantasia mecânica

  1. eu preciso fazer um trabalho sobre jean tinguely mas eu não achei o ano n°
    tamanho da obra do tinguely
    po,dapra me mandar por email

    o email é msn blz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s