burt bacharach – discografia

Muita gente que se diz admiradora da música de Burt Bacharach, se contenta com míseras coletâneas e afins. Não dá, para conhecer de verdade a obra do cara, é preciso mergulhar em todos os discos, dos lançamentos oficiais às trilhas sonoras. Pois são poucos (talvez nenhum?) os compositores do século XX com uma obra tão rica.

A minha intenção aqui é apresentar esse fantástico universo. Lógico que não coloquei tudo, seria uma tarefa pra lá de complicada. As canções de Bacharach estão espalhadas pelo mundo no repertório de outros artistas, em trilhas de filmes, musicais, programas de televisão… Mas tento comentar o essencial de sua discografia, os discos de carreira e as trilhas sonoras mais importantes.

Hit Maker! Burt Bacharach Plays His Hits – 1965

O desfile de canções no primeiro álbum de Bacharach é impecável, a começar pela imortal Walk on By. Há o equilíbrio entre o som pop em voga nos mid-sixties (Don’t Go Breaking My Heart, My Little Red Book, There’s Always Something to Remind Me) e as baladas matadoras. O que dizer de momentos como a explosão final de Don’t Make Me Over ou a sutileza de Anyone Who Had a Heart? Curosidade: em várias músicas há a participação dos então session men Jimmy Page e John Paul Jones.

Top: Walk on By, Don’t Go Breaking My Heart e (There’s) Always Something to Remind Me

What’s New Pussycat? – 1965

A faixa-título, entoada por Tom Jones, é um belo exemplo de como ser pop e sofisticado ao mesmo tempo. Discretamente, Dionne Warwick também diz presente com uma maravilha menos badalada do repertório de Bacharach: Here I Am. Já os ótimos temas instrumentais, dão bastante destaque para os solos de saxofone, algo não muito comum nos arranjos do compositor.

Top: What’s New Pussycat, Here I Am e Downhill and Shady.

After The Fox – 1966 
A trilha para esse filme menor de Vittorio De Sica é divertidíssima. Cheia de melodias à italiana e momentos dançantes, é extremamente variada e criativa. A quase garageira Italian Fuzz, com direito a riff distorcido, está entre as obscuridades mais interessantes do compositor. Um clássico da música lounge.  

Top: After The Fox, Making a Movie in Sevallo e Italian Fuzz

Casino Royale- 1967

Só por ter revelado ao mundo a pérola The Look of Love, a trilha dessa irregular sátira aos filmes de James Bond já mereceria todos os louros. A interpretação de Dusty Springfield é histórica. Também de primeira linha são os temas instrumentais, como Home James Don’t Spare the Horses e Flying Saucer-Stop Berlin. Curiosidade: Andrea Tonacci pincelou a canção Moneypenny Goes For Broke para um dos momentos mais anárquicos e sublimes do seu clássico marginal Bang Bang.

Top: Moneypenny Goes For Broke, Home James Don’t Spare the Horses e The Look of Love.

Reach Out – 1967

Foi com ele que descobri pra valer a música de Burt Bacharach. Não à toa, é meu favorito até hoje. Como de costume, há o desfile de canções impecáveis. Mas aqui existe um certo minimalismo, uma elegância ainda maior nos arranjos: da sonoridade mais lounge (Bond Street, Are You There With Another Girl) às baladas (Alfie, What the World Needs Now Is Love, The Windows of The World). Emocionante é palavra pequena para definir o momento em que a voz frágil de Bacharach introduz A House Is Not a Home. Obra-prima.

Top: A House Is Not a Home, What the World Needs Now Is Love e Reach Out for Me

Butch Cassidy & Sundance Kid – 1969

A fantástica trilha desse ótimo western de George Roy Hill ressalta a melancolia e a nostalgia encarnadas na obra. Também demonstra a criatividade de Bacharach. No tema feito para o trecho em que os bandidos fogem para a Bolívia, o mais óbvio seria algo relacionado à música andina. Não é o que acontece, South American Getaway é um maravilhoso e inusitado jogo de vozes que dá um colorido especial para as cenas. É a melhor trilha sonora de Burt Bacharach.

Top: Raindrop Keep Falling on My Head, Come Touch The Sun e South American Getaway

Make it Easy on Yourself – 1969

Promises Promises, This Guy’s in Love With You, Make It Easy on Yourself, Do You Know the Way to San Jose, I’ll Never Fall in Love Again… Impossível dar menos que cinco estrelas para um disco com essa quantidade de hits. Também é o melhor disco de Bacharach no quesito arranjos. Ouvir Make it Easy on Yourself é essencial para aprender que a música lounge vai muito além do maldito rótulo “música de elevador”.

Top: She’s Gone Away, Any Day Now e Do You Know the Way to San Jose

Burt Bacharach – 1971

Não tem a quantidade de hits do disco anterior, mas ainda sim é perfeito, da quebrada jazzística de Wives and Lovers à bela homenagem à filha em Nikki, chegando aos ecos de Tom Jobim em Freefall. Músicas menos cotadas do repertório de Bacharach também se destacam, como Mexican Divorce, All Kinds of People e April Fools. Em termos de sonoridade, forma uma dupla preciosa com o disco anterior.

Top: Nikki, Wives and Lovers e One Less Bell To Answer

Lost Horizon – 1973

A melhor coisa desse remake musical do clássico de Frank Capra é a trilha de Burt Bacharach. O exagero nas interpretações ficou datado, mas há canções muito bonitas aqui. The World is a Circle, com o coro infantil, é uma das melhores composições de Bacharach, executada até hoje em seus shows. O musical também revelou ao mundo o sucesso Living Together, Growing Together.

Top: Living Together, Growing Together, The World is a Circle e The Things I Will Not Miss

Living Together – 1973

Nesse disco, várias músicas da trilha de Lost Horizon ganham versões bem mais interessantes. É o caso da faixa título, de I Come to You e I Might Frighten Her Away. Há também o instrumental absurdo de Monterey Peninsula, música não tão famosa, mas obrigatória para quem cultua os arranjos de Bacharach. Long Ago Tomorrow, sucesso no Brasil na voz de B. J. Thomas, ganha aqui excelente versão.

Top: Monterey Peninsula, Long Ago Tomorrow e Something Big

In Concert – 1974

O interessante desse disco é a visceralidade das versões, de arranjos bem fiéis às originais. A imperfeição da gravação coloca em relevo o baixo estalando (a versão de The Look of Love, por exemplo, é cheia de improvisos com o baixo lá em cima) e a bateria agressiva nas passagens mais rápidas. O impecável set funciona como um grand finale pra parceria entre Bacharach e Hal David, que acabou após as tumultuadas sessões do Lost Horizon. Bacharach solta a voz em Raindrops Keep Falling on My Head, A House is Not a Home e Alfie.

Top: Alfie, This Guy’s Love with You e The Look of Love.

Futures – 1977

Embora ainda tenha duas canções com o letrista Hal David, Futures parece ser o início de uma nova etapa na carreira de Bacharach. É um disco mais pop, grandioso, com arranjos mais cheios. E meloso também, algo que ficaria bem evidente nos anos 1980, em trilhas do filme Arthur por exemplo. Não tem o aspecto intimista característico da música de Bacharach, em alguns momentos soa até funky, com direito a baixo e bateria em primeiro plano. O grande destaque é a inusitada parceria com Peter Yarrow, do Peter, Paul & Mary. Sua voz emociona em The Young Grow Younger Every Day.

Top I Took My Strenght For You, Futures, The Young Grow Younger Every Day

Painted From Memory – 1998

Esse disco foi lançado num período em que a música de Burt Bacharach estava sendo redescoberta. Citações em todos os cantos, tributos, shows comemorativos e participações nos filmes de Austin Powers acabaram trazendo novamente os holofotes para o compositor. Foi um disco que dividiu opiniões na época do lançamento. É irregular se o ouvinte quiser encontrar – e é justo que queira – o melhor de Costello e de Bacharach. Está longe disso, mas há belos momentos como Tears at the Birthday Party e God Give Me Strength.

Top: Tears at the Birthday Party, God Give Me Strength e In The Darkest Place

At This Time – 2005

Esse é daqueles discos que nem precisariam vir ao mundo. Burt Bacharach já fez o que precisava fazer, portanto é invejável que quase aos 80 anos ele ainda tivesse empolgação pra entrar num estúdio e fazer um disco. É bem fraco, certamente o pior de sua carreira. O que se salva são os momentos instrumentais orquestrados como Danger e Fade Away e as que contam com a participação de Elvis Costello e Rufus Wainwright. Tudo bem, o velho tem todos os créditos do mundo para fazer qualquer bobagem. Ele pode.

Top: Go Ask Shakespeare, Who Are These People e Danger.

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12 respostas em “burt bacharach – discografia

  1. Para mim foi uma gravação milionaria, ele utilizou mais de 50 músicos, entre os solistas convidados, estão Dr.Dree o Raper, Paulinho da Costa, o percusionista, são belas músicas, bem arranjadas, pode não ser o melhor disco do Maestro, sem duvida ele caprichou .

  2. Parabéns Leonardo!
    O cara é simplesmente apaixonante, suas músicas mexem com nossa alma, não tem como não parar para sentir suas músicas.
    Deus deve estar orgulhoso deste ser.

  3. Está faltando o disco que tem um busto dele.
    Com a canção “Come Touch de sun” que foi tema de abertura da sessão de gala nos anos 70.

  4. OLÁ, GOSTO MUITO DO BURT, MORO AQUI NO RJ, NÃO TENHO NENHUM DISCO DELE. É DIFÍCIL ACHAR ESSE TIPO DE MÚSICA, QUE QUASE NINGUÉM CURTE, PARA COMPRAR, NEM DE COLETÂNEA. AINDA NÃO TIVE CHANCE DE ACHÁ-LOS…

  5. BURT BACHARACH, muita gente gosta, gente da década de 70, gente que se apaixonou ao som de CLOSE TO YOU, Raindrops Keep Falling on my Head. Essas e muitas outras músicas deste grande autor embalaram meus sonhos, impossivel se esquecer destas melodias. O programa Fantástico naquela época sempre apresentava clips do Burt com vários artistas que gravavam suas músicas, que saudades. Tenho o disco Lost Horizon, Living Toghether ficou nas paradas por muito tempo.

  6. Tenho 49 anos, gosto de burt bacharach desde quando ouvi o “Passport theme” que ninguém conhece, eu então aos 8 ou 9 já defini o meu gosto musical a despeito das musicas que me cercavam. considero-me pessoa de muito bom gosto e fico feliz em poder dizer isso aqui entre pessoas que compartilham o mesmo sentimento. ” SENTIMENTO” é o que há em B. B.

  7. Hoje soube, pelo rádio, da morte de Burt Bacharach. Não sei dos seus passos nos últimos anos, mas certamente a música perdeu um dos maiores compositores do século vinte. Cponheci o trabalho de BB em 1971, com seu LP daquele ano. Foi amor à primeira audição. Brilhante, criativo, dissonante, harmônico e absolutamente autoral, o trabalho desse fantástico músico foi uma benção para a nossa geração. Parabéns pela sua preciosa página.

      • Ôpa!!! Não deixa de ser uma boa e uma má notícia ao mesmo tempo… Dirigindo, talvez tenha confundido a coisa toda, Mas, tive a nítida impressão de que o locutor falava da morte do Burt. Pretendo começar minha coleção desse grande artista e é melhor fazê-la com ele vivo, claro. Abração, Leonardo.

  8. burt bacharach é um grande compositor, que fez grandes maravilhas , como close to you,i say a little prayer, reach out, never falling love again, walk on by, alfie e tantas outras dentre elas, até música para os Beatles também, ele é sinônimo de bom gosto e sofisticação, ele é a base e sustentação do pop dos anos 60 até os dias de hoje.

  9. acho que nunca houve nem haverá compositor como Burt.. Ele é sem dúvida um venerável maestro, um grande personagem da verdadeira música (que toca no coração). Eu amo suas músicas e o acho alguém apaixonante pois é capaz de criar harmonia na alma.
    Parabéns pelo seu acervo e pelo bom gosto!

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