wong kar-wai’s lonely hearts club band

Wong Kar-wai é um cineasta que gosta de revisitar o próprio universo. Consegue, como poucos, retomar personagens, ambientes, histórias, objetos. Das presenças constantes na obra do chinês, existe um elemento muito simbólico: os balcões. Kar-wai adora colocar seus pares românticos separados por um balcão. Embora apareça em outros momentos, ele tem papel importante na construção narrativa de pelo menos três filmes do diretor, Dias Selvagens, Amores Expressos e Um Beijo Roubado.

O balcão acaba evidenciando a essência dos protagonistas de Kar-wai, pessoas que parecem predestinadas a ficar sozinhas. Ele representa essa linha fina que permite certa proximidade, mas ainda sustenta uma distância. É a paixão que ferve, mas que por algum pequeno detalhe não se realiza, ou que pelo menos não se completa.

O protagonismo do balcão é decisivo em "Um Beijo Roubado".

Até mesmo quando o balcão não está literalmente em cena, há alguma presença que acaba impedindo a concretização do amor. Ele pode ser a fina parede que separa os quartos em 2046, o acordo de que sócios, mesmo atraídos, não podem se ver em Anjos Caídos, a questão moral entre os vizinhos de Amor à Flor da Pele, ou o próprio universo dissonante dos personagens, algo crucial para a resolução de Conflito Mortal e Felizes Juntos. É sintomático que até numa história criada por um personagem de Kar-wai, o Mr. Chow de 2046, exista a presença do balcão. Ele é o retardo que impede o diálogo entre as andróides e suas paixões.

Em Um Beijo Roubado, Wong Kar-wai paga tributo ao estimado balcão, o colocando como o grande protagonista da história. Como é de praxe na obra do chinês, existe um casal que não aconteceu. E os dois, em cidades diferentes, passam praticamente o filme inteiro atrás de seus respectivos balcões. O desfecho positivo, raridade em se tratando de Kar-wai, também é construído em função dele. Toda a graciosidade do beijo redentor está no que o balcão pode oferecer para que a cena aconteça de forma diferente.

Na recorrência dessa presença, existe, é claro, o interesse em provocar –  é quase um exercício de sadismo colocar duas pessoas que se querem tão próximas, mas impedidas de um contato físico mais intenso. Alimenta, sem dúvida, a pulsão sexual dos filmes de Kar-wai. Até porque o balcão traz consigo a idéia de submissão, alguém que serve outra pessoa, além de colocar os olhos em encontro direto, sem muita possibilidade de desvios.

A proximidade e a distância, o balcão em "Dias Selvagens" e "Amores Expressos".

Claro que o cineasta também trabalha a ambiguidade do balcão. Em Dias Selvagens, por exemplo, o enquadramento sugere o balcão como uma linha finíssima, os rostos dos protagonistas estão quase grudados. Na cena seguinte, eles estão na cama. Já em Amores Expressos, o personagem do policial tenta pedir um sanduíche para a vendedora, que nem olha para o sujeito, está mais interessada em dançar California Dreaming. Aqui o balcão não é uma linha, é um verdadeiro muro. É a senha para perceber que o romance entre os dois não terá um desfecho positivo.

Mas o cinema de Wong Kar-wai é realmente genial quando esse símbolo do balcão, o jogo entre a proximidade/distância, aparece na própria relação entre obra e espectador. É sublime em Amor à Flor da Pele. Vemos tudo, ao mesmo tempo, não vemos nada. Sabemos tudo, ao mesmo tempo, não sabemos nada. Com precisão, a canção tema de Nat King Cole traduz: “quizás, quizás, quizás”. Porque o talvez, palavra mágica para se pensar a ambigüidade da obra de Kar-wai, não deixa de ser um belo e envolvente balcão.

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