rohmer

Um cinema em que a câmera é invisível também pode ser um cinema moderno”. Essa foi uma das inúmeras provocações que Éric Rohmer fez na lendária entrevista a Cahiers du Cinéma em 1965 – revista da qual acabara de ser redator-chefe. No auge das rupturas dos novos cinemas, o francês permanecia reticente em relação à necessidade quase insana de encontrar uma oposição entre um cinema clássico e um moderno. Modernidade que, para ele, não deveria ser uma obsessão.

É notável que Rohmer sempre foi um sujeito de posições fortes, de idéias particulares – até mesmo num ambiente cheio de sujeitos com idéias extremamente particulares. Talvez por isso mesmo, tenha sido o cineasta da Nouvelle Vague que tive mais dificuldade em mergulhar.

Foi depois de um tempo que descobri o que me causava desinteresse na obra de Rohmer. Quando se começa a ver os filmes da Nouvelle Vague, é normal acontecer uma intoxicação cinematográfica. O que mais me interessava naquelas obras é que elas me colocavam dentro do cinema. Eu saía de uma sessão do Godard, do Truffaut, do Chabrol (Rivette é outro caso, mas isso é assunto longo, coisa pra outro texto), e queria respirar cinema, fazer cinema, viver cinema. Com Rohmer não. Isso nunca acontecia. Naturalmente, naquela época, seus filmes não poderiam me impressionar. Porque os filmes de Rohmer levam à vida, você não sai do cinema pensando num travelling, mas querendo conversar com alguém na rua, encontrar uma pessoa por acaso numa padaria. E eu só queria cinema, não queria a vida.

Tive a sorte de poder conhecer melhor a obra de Rohmer numa retrospectiva, o que facilitou o mergulho. Aí foi covardia. Ver uns dez filmes do cineasta na mesma semana é para deixar qualquer um obcecado com cenas como a perseguição do menino ao namorado de sua amante no parque de A Mulher do Aviador (1981). Ou uma de Conto de Inverno (1992) que é praticamente uma embaixada da obra de Rohmer, quando após uma peça de Shakespeare, a protagonista e seu amigo-namorado começam a falar do espetáculo e o papo passa naturalmente por filosofia, religião e o próprio relacionamento dos dois. Tudo muito simples, mas muito vivo.

Na mesma entrevista de 1965 que citei acima, Rohmer deixa claro que a oposição naquele momento não era entre cinema clássico e cinema moderno, ou cinema de poesia e cinema narrativo, mas sim entre o cinema que aborda a vida e o cinema que aborda o próprio cinema. No fim, acho que essa foi a grande contribuição de sua obra, trazer um sopro de vida num ambiente que muitas vezes parecia respirar apenas cinema.

Pra quem gosta dos filmes de Rohmer, vale a pena dar uma olhada na edição desse mês do Senses of Cinema. Está cheia de textos e ainda traz outra entrevista antológica a Cahiers du Cinéma, dessa vez realizada em 1970.

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