zona de risco

Pode não ser um assombro estético, um mártir da invenção, mas Zona de Risco me parece o ponto alto do cinema de Park Chan-wook. Por um motivo bem simples; no lugar de uma avalanche de acontecimentos chocantes que rapidamente transformam excitação inicial em marasmo, aqui há apenas um grande acontecimento que consegue sustentar bem toda a tensão do filme.

São dois pontos importantes na estrutura narrativa de Zona de Risco que o diferencia de outras obras do diretor. Já citei o primeiro, que é concentrar o filme num acontecimento forte. No caso, um tiroteio que envolve oficiais das duas Coréias. Esse momento funciona como porto seguro do filme, permite as tradicionais digressões excessivas de Chan-wook – como por exemplo a longa cena do encontro dos soldados numa vigília noturna entre os dois países –, e não deixa que as sequências realmente impactantes percam sua força, algo recorrente na trilogia da Vingança e no recente Sede de Sangue.

O segundo ponto é fundamental para a grande tese do filme: a impossibilidade da união entre Coréia do Sul e Coréia do Norte. Em nenhum momento Park chan-wook está interessado em iludir o espectador, dar falsas esperanças para um desfecho utópico. Por isso, primeiro ele mostra a crise, os soldados chacinados, a confusão diplomática. Depois ele recorre a um enorme flashback que introduz a amizade entre oficais dos dois lados. Amizade que, já sabemos de antemão, não terá um bom desfecho.

Há quem diga que se trata de uma estrutura narrativa sádica, mostrar o pesadelo para depois introduzir um sonho sugestionado pelo horror, ou seja, colocar uma nuvem negra sobre qualquer hipótese de solução. Aqui, no entanto, a estrutura não está colocada para manipular facilmente as emoções (penso especificamente numa baixaria como Irreversível, de Gaspar Noé).  Zona de Risco é o oposto, sua narrativa é construída dessa forma para evidenciar que, sob qualquer circunstância, a divisão fictícia de um povo é sinônimo de uma inevitável tragédia. A emblemática fotografia tirada por um turista que reúne os oficiais na mesma imagem reforça a idéia central do filme: qualquer possibilidade de união entre os dois países é resultado de uma ficção.

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