sede de sangue

Nunca fui fã de vampiros. Das figuras presentes no imaginário do horror, sempre foi aquela que menos me interessou. Não sei explicar o real motivo, talvez seja culpa da pompa aristocrática do Conde Drácula que, inevitavelmente, acabou associada a quase todos seus semelhantes. Entre os grandes vilões imortalizados pela cultura popular, o vampiro tradicional me parece um pouco esgotado. Por isso mesmo costumo abraçar as subversões do gênero. No cinema existem aos montes, do exploitation delicioso de Vampiros Lesbos de Jesus Franco e Blacula de William Crain; a filmes mais “sérios” como a obra-prima Martin de George A. Romero e o recente Deixa Ela Entrar de Tomas Alfredson.

Partindo desse pretexto, Sede de Sangue – novidade do sul-coreano Park Chan-wook – seria um filme com grandes requisitos para eu antecipar na lista dos favoritos do ano. Na trama, um padre acaba morrendo após servir de cobaia para uma pesquisa de desenvolvimento de vacinas. Ele volta à vida depois de uma transfusão de sangue misteriosa e, imediatamente, se torna um vampiro. Mas um vampiro com uma dissonância importante: a moral de um padre. Como ele se recusa a matar, sua sede é saciada durante as noites no hospital, quando ele toma um pouco do sangue de um doente, diretamente do soro.

A avalanche de absurdos do início soa como um belo aceno ao cinema de David Cronenberg. Há aquela maravilhosa ausência de enfadonhas justificativas para o inexplicável, as coisas simplesmente acontecem. A referência ao mestre canadense também aparece no que o filme tem de melhor: Park Chan-wook trata o vampirismo como necessidade fisiológica. Mais vampira – no sentido cultural do termo – que o protagonista é a nebulosa família da menina pela qual ele se apaixona. Esse contraponto entre o estar vampiro e o ser vampiro é o grande trunfo de Sede de Sangue.

Um contraponto que também existe no outro viés da obra: o amor desesperado, colocado em cena na relação entre o padre desorientado com sua nova vida e menina humilhada. A cena de sexo, enorme e silenciosa, é um dos pontos altos de um  filme que também questiona esse lado vampiresco das relações amorosas. Entre os dois, existe um amor enlouquecido, conflituoso, que chega ao ápice na cena da troca de sangue, possivelmente o momento mais glorioso da carreira de Park Chan-wook.

Existe, no entanto, um grave problema em Sede de Sangue: a prolixidade, algo comum na filmografia do sul-coreano. Chan-wook é um cara cheio de boas idéias, mas faz questão de esticá-las até o limite do insuportável. Mais do que cansar o espectador (cansar o espectador é algo que gosto de ver no cinema), esse excesso acaba tirando a força do filme. É um problema que já havia atrapalhado o ótimo Old Boy e tornado ainda mais tedioso o Lady Vingança, para ficar com dois extremos da carreira de Chan-wook. A necessidade de fazer do filme uma hemorragia cinematográfica, faz com que muitas cenas antológicas (como a da troca de sangue citada acima) percam todo o impacto. E a sobrevivência de Sede de Sangue resiste naquilo que ele consegue oferecer de impactante.

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