leonard cohen em dois momentos

Outro dia liguei a televisão e estava passando um documentário sobre o Leonard Cohen. Não aguentei muito tempo, tenho problemas com esses documentários que passam a impressão de um maratonista dentro de um quarto de dois metros quadrados, um tema rico enclausurado num formato limitado. Mesmo assim, serviu para eu dormir naquela noite lembrando de como as canções do canadense funcionam bem no cinema.

A voz de Cohen já é de uma fragilidade poderosa anunciada apenas para os ouvidos. Quando ela acolhe imagens em movimento então, o impacto é ainda maior. E no ano de 1971, ela ecoou em dois importantes e distintos filmes: Quando os Homens são Homens, de Robert Altman, e Fata Morgana, de Werner Herzog.

Enquanto no filme de Altman as canções de Cohen funcionam como comentários cheios de lirismo da trama apresentada, Herzog as utiliza como mais um elemento de estranhamento. Fata Morgana é, de fato, um filme bem estranho. Filmado em 1968, mas finalizado apenas em 1971, consegue ser um caso à parte dentro de uma filmografia que já caminhava como algo extremamente singular do Novo Cinema Alemão daquele período.

E as canções de Cohen realmente surpreendem ali. Mesmo num filme que, durante sua projeção, vai preparando o espectador para o absurdo, é bastante inusitada a entrada em cena das três canções  (Suzanne, So Long, Marianne e Hey, That’s No Way to Say Goodbye). Pelo alto teor lisérgico da obra, talvez o mais esperado fosse alguma viagem psicodélica, algo mais espacial, ou alguma música tradicional africana, já que o filme foi rodado em Camarões. Mas é sublime o contraste entre a sonoridade minimalista, da melancolia da voz de Cohen com os intermináveis travellings pelo deserto de Herzog. Um sopro de liberdade cinematográfica.

Quando os Homens são Homens é, na definição do próprio Altman, um poema. Perto do tom surreal de Fata Morgana, até pode enganar ser um filme convencional, mas o que vemos ali é uma forte ruptura dentro do western. Não a ruptura mais alardeada naqueles anos, a violência, as importações italianas, a queda dos mitos, dos arquétipos do velho oeste. Quando os Homens são Homens trata de um momento posterior, quando aquele imaginário, mais do que uma ruptura imediata, precisava urgentemente de uma redefinição mais sólida. E a música de Cohen é pontual. Desde o início, na introdução que apresenta um temido McCabe, até o desfecho com o mesmo homem já fragilizado, Leonard Cohen sussurra suas palavras num encontro entre a precisão e a imaginação. Em alguns momentos, as canções (The Stranger Song, Sisters of Mercy e Winter Lady) parecem ter sido feitos sob encomenda, em outros indicam um parentesco distante com o filme. Como se traduzissem a alma daqueles personagens e, ao mesmo tempo, levasse aquela situação para outro lugar. Vale ressaltar que as músicas utilizadas nos dois filmes são do primeiro disco do compositor canadense, a obra-prima Songs of Leonard Cohen, de 1967. Não foram trilhas pensadas para os filmes.

Apesar do casamento imediato, diz a lenda que Altman pensou nas músicas de Coen apenas na última hora, quando o filme já estava sendo rodado. O certo é que o efeito de uma cena como a da personagem de Julie Christie chapadaça de ópio ao som de Winter Lady é algo sensorial. Nada anormal vindo de um cineasta que sempre teve uma sensibilidade extraordinária para pensar relação entre música e cinema, e que poucos anos depois fez o melhor filme sobre música de todos os tempos: Nashville.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s