o vivo e o opaco

Fiz a besteira de encarar Lula – O Filho do Brasil depois de Ervas Daninhas de Alain Resnais. Porque a obra de Fábio Barreto, ao contrário do filme francês, não trata de seres humanos, mas de monolitos. Há a clara intenção de reforçar, a todo momento, um decisivo traço psicológico de cada personagem. Todas as cenas com o pai de Lula servem para mostrar que ele é um alcóolatra canalha; todas as cenas com a mãe existem para colocar em evidência a força solitária daquela mulher; todas as cenas de Lula, do nascimento ao sindicalismo, estão ali para mostrar que ele é um sujeito sensível e instintivo, apesar da falta de condições de vida. Lula – O Filho do Brasil é um festival de redundâncias. São mais de duas horas que poderiam ser resumidas em cinco minutos.

A figura do Lula merecia algo melhor. Uma história tão cheia de ambiguidades não deveria ser retratada da forma infantil como foi. O pior é que nem consegue arrancar aquela emoção barata (mesmo repleto de casamentos e funerais). Também não me parece um filme atraente para o grande público. É opaco.

Claro que a ausência de brilho ficou ainda mais pesada após Ervas Daninhas, que também não parece imediatamente atraente para o grande público. Mas aqui a razão é outra. É todo costurado em cima das ambiguidades do ser humano, de uma riqueza que muitas vezes é recusada quando se está acomodado numa poltrona às escuras, de imagens que pedem um olhar de compaixão e outro de estranhamento. É vivo.

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