era uma vez… a revolução

São poucos os filmes que refletem tão intensamente a sua própria época como Quando Explode a Vingança, rebento setentista de Sergio Leone. Debruçando-se sobre a Revolução Mexicana do início do século XX, o cineasta italiano consegue expor de forma brilhante a ressaca revolucionária que marcou os primeiros anos da década de 1970, quando utopias políticas e emblemas da esquerda, eletrificados em 1968, começavam a desmoronar.

Não é à toa que Leone introduz Quando Explode a Vingança com a clássica citação de Mao Tsé-Tung – “a revolução não é um convite para jantar (…), mas um ato de violência” –, que esteve entre muitos dentes durante a década de 1960. O que fica evidente nas quase três horas de puro cinema que sucedem a frase maoísta, é que, no fim, restou apenas a violência. Como diz um dos protagonistas a um companheiro de militância: “eu só acredito na dinamite”.

O autor da frase é John Mallory, inusitado personagem irlandês do western de Leone. Mallory é um integrante do IRA que precisou fugir do Reino Unido e acabou se unindo à revolução no México. A presença desse personagem também não é mero acaso. Havia uma enorme efervescência política em torno do grupo que buscava a unificação das Irlandas. Rebelião violentíssima que culminou no marcante Domingo Sangrento em 1972, quando quatorze pessoas foram mortas pelo Exército Britânico na Irlanda do Norte. De Mao Tsé-Tung ao IRA, Sergio Leone estava realmente preocupado em refletir sobre sua realidade.

O que pontua a trama do filme é o encontro entre o irlandês e Juan Miranda, um bandido que usa toda a família para atacar diligências no meio do deserto. Enganado por Mallory, Miranda acaba protagonizando a Revolução Mexicana, da qual ele desdenha – “enquanto os pobres morrem, os ricos pensam e comem, depois quando vencem, viram generais”. Mallory, em contrapartida, é pura desilusão. Suas lembranças dos tempos de militância na Irlanda (primorosos os flashbacks embalados pelas harmonias de Ennio Morricone) são extremamente doloridas.

Estamos diante de três personagens e suas ambiguidades: um bandido, um ativista e a revolução. É sublime que Quando Explode a Vingança vai se tornando cada vez mais amargo no passar das horas. O vigor do início dá lugar à falta de perspectivas de Miranda, que tem sua família chacinada, e Mallory, que tem sua causa traída. Palavras certeiras são de Inácio Araújo ao relembrar um dos títulos brasileiros do western (Era Uma Vez… a Revolução): “é profético porque associa a idéia de revolução a um conto de fadas, cuja existência só pode acontecer na imaginação”.

Nesse sentido, Quando Explode a Vingança forma um par importante com o também amargo Tudo Vai Bem, de Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin, outro filme-ressaca dos anos 1970. Por mais que sejam opostos, o espetáculo de Leone e o anti-espetáculo de Godard e Gorin – primorosos em sua urgência – são filmes irmãos. Feitos no mesmo período (1971 e 1972) , trazem as primeiras faíscas de um pensamento que dominou a ‘Década do Eu’, como caprichosamente definiu Tom Wolfe.

É interessante lembrar que a mesma citação de Mao que abre o filme de Leone, é dita por Anne Wiazemsky em A Chinesa, obra de Godard que antecipou muita coisa de Maio de 1968.  A diferença é que, enquanto no filme de 1967, as palavras maoístas parecem conclamar a revolução; em 1971, as mesmas palavras dissertam sobre o fim do sonho revolucionário. Da mesma forma que Mallory declara sua fé na dinamite, muitos grupos políticos (como a própria revitalização violenta do IRA no final dos anos 1960) rumaram para o terrorismo puro.

Assim como o filme de Leone, Tudo Vai Bem também se concentra em dois protagonistas: um casal em crise. Jacques é um cineasta da Nouvelle Vague que após Maio de 1968 desistiu do cinema e voltou-se para a publicidade. Susan é uma jornalista que se autodefine como uma correspondente que não corresponde com nada. Godard é os dois personagens em crise; o filme é uma espécie de epitáfio do seu coletivo de cinema militante Grupo Dziga Vertov. O discurso sufocado do cineasta aparece principalmente nos dois enormes monólogos em que os personagens expõem suas angústias. Desde Pierrot Le Fou Godard não realizava um filme tão desesperado.

O desespero respira forte principalmente na frase de Susan: “uma correspondente que não corresponde com nada”. É a melhor definição para o artista Godard naquele momento, cineasta que no auge de sua trajetória desviou a sua própria ruptura cinematográfica para entrar de cabeça numa ruptura, acima de tudo, política. O valor dos filmes-ensaio do Grupo Dziga Vertov é inestimável, mas o preço que Godard pagou foi alto. O cineasta mais relevante da década se tornou um radical enfurecido, quase uma excentricidade.

Podemos visualizar na postura do francês no decorrer dos anos 1970 a frase emblemática de John Mallory, com uma pequena alteração: “eu só acredito no cinema”. Em Godard o cinema sempre aparece em primeiro plano. Mais do que a ressaca revolucionária, Tudo Vai Bem investiga a ressaca de um cinema revolucionário, como frisou Christian Zimmer, a impossibilidade de um cinema naquele contexto. Nesse sentido, tanto o filme de Godard quanto o de Leone também dialogam em suas conclusões: um enorme ponto de interrogação.

Anúncios

Uma resposta em “era uma vez… a revolução

  1. grande toque seu Leo

    já até ‘roubei’ o texto e coloque no ‘mapeamento’ que estou fazendo [agora] no orkut sobre o Godard:

    http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=1808470&tid=5422927275327324192&na=4

    terminei um do tarkovsky, pasolini e do zulawski

    depois do godard serão o antonioni [apenas alguns filmes], buñuel [também apenas alguns – não todos da fase mexicana] e todo o truffaut.

    ***

    Dê seus toque lá

    abrx

    vai o link da comunidade pra você ver o começo do trabalho [comecei dia 4 de janeiro]:

    http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=1808470

    [não se assuste com a foto.
    As deusas são importantes na nossa vida…rrkskskskskskksks)

    mrlx

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s