jorge ben – discografia 1963 – 1976

Para fechar a semana Jorge Ben, a discografia comentada da fase mais inspirada do mestre. Os discos de 1963 e 1976, todos (com excessão de O Bidú – Silêncio no Brooklin) relançados dentro da caixa Salve, Jorge!, o melhor presente fonográfico que um sujeito pode ganhar nesse natal. Ao lado de Roberto Carlos, Jorge Ben é certamente o artista brasileiro com o maior número de obras-primas. A sequência de discos entre 1969 e 1975 é um capítulo à parte da nossa música.

Samba Esquema Novo (1963)

Tem grande mérito por ser dançante e intimista na mesma intensidade. Se ficasse só nesse disco, a invenção de Jorge Ben já seria tremenda. A melhor definição é cantada pelo próprio em É Só Sambar: “o meu samba é mistério, mas é gostoso de sambar.” Estréia impecável.

Top: Mas Que Nada, Chove Chuva e Ualá Ualalá

Sacudin Ben Samba (1964)

Muito inferior ao Samba Esquema Novo. E pra piorar, investe na repetição da fórmula. O grande problema é que as canções, quando não parecem versões alternativas dos sucessos do álbum de estréia, são muito irregulares. Um passo em falso.

Top: Carnaval Triste e Menina do Vestido Coral

Ben é Samba Bom (1964)

Outro disco fraco. Aqui, pelo menos, Jorge Ben busca uma renovação, principalmente na forma de cantar, menos intimista, mais expansiva. Há alguns destaques individuais, como a inusitada Descalço no Parque e Bicho do Mato (que ganhou diversas e melhores regravações, de Walter Wanderlei a Elis Regina).

Top: Descalço no Parque e Bicho do Mato

Big Ben (1965)
É superior aos discos anteriores e mostra uma faceta mais diversificada de Jorge Ben. É o disco de Agora Ninguém Chora Mais (que ganhou versão imbatível de Erasmo Carlos no clássico Carlos, Erasmo) e da maravilhosa O Homem que Matou o Homem que Matou o Homem Mau, brilhantemente colocada na sequência final de O Pornógrafo, emblema do Cinema Marginal de João Callegaro.

Top: o Homem que Matou o Homem que Matou o Homem Mau, Agora Ninguém Chora Mais e Lalari Olalá

O Bidú – Silêncio no Brooklin (1967)

Um disco de transição que ganhou aura cult ao longo dos tempos. O flerte com a Jovem Guarda aparece em parceria com Erasmo Carlos, na participação do The Fevers, nas citações a bares da Rua Augusta, mulheres coloridas e carros velozes. Nasce aqui o Jovem Samba, espécie de protótipo do Samba-Rock. Caetano Veloso diz que sem esse disco, não haveria Tropicália.

Top: Amor de Carnaval, Toda Colorida e Si Manda

Jorge Ben (1969)

A bíblia do Samba-Rock. Está tudo aqui. O famoso disco de capa psicodélica Tropicalista de Jorge Ben tem o mesmo peso de uma coletânea, todas as músicas são hits de primeira. É o tipo de disco que pode rodar inteirinho numa festa. Também é nesse disco que Jorge Ben encontrou a melhor timbragem para sua voz. Nota para os arranjos, da pungência soul de Criola e Cadê Tereza para a criatividade de Rogério Duprat em Barbarella e Descobri Que Sou Um Anjo. Obra-prima.

Top: Domingas, Que Pena e Take It Easy My Brother Charles

Força Bruta (1970)

Outra obra-prima. É um disco mais soturno, a começar pela singela melancolia de Oba Lá Vem Ela, um libelo ao amor platônico. Em Força Bruta há o equilíbrio perfeito entre baladas e canções mais agitadas. A presença do Trio Mocotó também precisa ser ressaltada. O entrosamento de João da Parahyba, Fritz Escovão e Nereu Gargalo com Jorge Ben é algo de outro mundo.

Top: Oba Lá Vem Ela, Charles Jr. e O Telefone Tocou Novamente

Negro é Lindo (1971) 

Mais uma obra-prima. Partindo do bordão black, Jorge Ben desfila por ciganas, boxeadores, comanches, Rita Lee, parcerias com Toquinho e um fantástico hino de amor à musa eterna Maria Domingas. Segue o tom melancólico do disco anterior, embora trabalhe com elementos mais variados.

Top: Maria Domingas, Que Maravilha e Palomaris

Ben (1972) 

Um disco de transição. Ainda guarda o tom melancólico, mas já antecipa algumas sonoridades que se tornariam ainda mais sublimes em A Tábua de Esmeralda. Jorge Ben também usa e abusa de afinações mais graves em seu violão, colocando um aspecto sombrio no romantismo de Que Nega É Essa e Moça. Destaque também para as letras que beiram o surrealismo como em O Circo Chegou.

Top: O Circo Chegou, Moça e Que Nega É Essa

A Tábua de Esmeralda (1974) 

O melhor disco brasileiro de todos os tempos, na minha modesta opinião. Obra-prima é pouco para esse disco cheio de amor e misticismo. Tudo aqui é perfeito, composições, arranjos, letras, vocais. Um marco do samba, um marco da psicodelia. Obrigatório até em coleção de quem não suporta música.

Top: Todas

Solta o Pavão (1975) 

Os temas místicos e religiosos de A Tábua de Esmeralda continuam, assim como os arranjos mais viajantes, que incluem até sintetizadores. É, no entanto, bem mais fraco que todos os cinco discos anteriores. A maioria das composições deixa a desejar, faltam aqueles sucessos imediatos que só Jorge Ben sabe fazer. O destaque fica por conta de canções divertidas como Zagueiro e Cuidado com o Buldogue, mais dois acertos do compositor dentro do imaginário futebolístico.

Top:  Zagueiro, Assim Falou Santo Tomaz de Aquino e Cuidado com o Bulldog

África Brasil (1976) 

Jorge Ben assume a guitarra. Diferente de Bidú, disco guitarreiro de 1967, aqui a sonoridade é bem madura. Se à primeira vista pode indicar uma ruptura com o tradicional violão dos discos anteriores, África Brasil se apresenta como uma consequência natural das pesquisas sonoras de Jorge Ben. A eletricidade transborda a influência soul/funk que já percorria, sem tanto alarde, a obra do compositor desde o disco de 1969.

Top: Ponta de Lança Africano, Taj Mahal e A História de Jorge

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4 respostas em “jorge ben – discografia 1963 – 1976

  1. Maravilha! Realmente, queria enviar esse post pra os mais chegados como ideia de presente…

    Sobre Solta o Pavão, discordo, acho um belo disco, em canções-chave, como Jorge da Capadócia, em outras talvez mais “repetidoras de fórmula”, como Jesualda e Se segura malandro. Claro que depois da sequência 1969-Tábua não devia tá fácil ser gênio nem pra Jorge.

  2. Extremamente bem colocadas as observações, eu que sou um fã incondicional do excelentíssimo Sr.Jorge Ben fiquei estasiado com sua tamanha dedicação ao tentar entender as obras do mestre. Em bora discorde de algumas críticas que você veio a fazer, no geral foi você foi muito feliz.

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