os giallos de sergio martino

No momento em que eu já começava perder as esperanças com os giallos, conheci o cinema de Sergio Martino. Após ver os filmes de referência do subgênero italiano, me deparei com muitas produções medianas e irrelevantes. Existe um abismo entre as obras-primas e os filmes menores. Não tão badalados, os filmes de Sergio Martino merecem espaço dentro do que melhor foi feito no cinema giallo dos anos 1970.

Foram quatro giallos no começo da década de 70:  Lâmina Assassina (1971), A Cauda do Escorpião (1971), O Seu Vício é Uma Porta Fechada e Só Eu Tenho a Chave (1972) e Todas as Cores da Escuridão (1972).

O interessante é que Martino costuma subverter os rumos tradicionais do cinema de gênero. Em filmes como A Cauda do Escorpião e O Seu Vício é Uma Porta Fechada e Só Eu Tenho a Chave, mais do que a costumeira dúvida em relação ao assassino, existe o ponto de interrogação sobre quem são os reais protagonistas da história,  algo que intensifica ainda mais a surpresa dos desfechos.

Por muitos dos personagens de Martino serem pessoas problemáticas – em Lâmina Assassina é uma mulher sadomasoquista, em O Seu Vício é um homem completamente depravado – há uma quebra na fácil identificação por parte do espectador. Muitas vezes não vemos uma vítima ou um herói bem definidos. Nos filmes do italiano, a impressão é que por mais que haja apenas um assassino (e às vezes há mais de um), todo mundo carrega algo de podre.

A Cauda do Escorpião, em especial, surpreende ainda mais com a morte da suposta protagonista na primeira meia hora do filme. Nada que Alfred Hitchcock não tenha feito anos antes, mas algo extremamente incomum dentro do universo giallo. Já em O Seu Vício é Uma Porta Fechada e Só Eu Tenho a Chave, entra em questão o jogo de aparências, instigado pelo habilidoso roteiro, cuja influência do conto O Gato Preto de Edgar Allan Poe é total.

Geralmente assinados pela dupla Ernesto Gastaldi e Sauro Scavolini, os roteiros consistentes são um dos grandes trunfos dos filmes de Martino.  Se em muitos giallos a história parece estar apenas a serviço das estilizadas cenas de assassinato, aqui existe o tom certo entre a investigação policial e o desenvolvimento da trama.

A direção de Martino também é extremamente cuidadosa, principalmente na obra-prima Todas as Cores da Escuridão. São poucos os filmes do horror italiano com mise-en-scène tão trabalhada. A câmera é inventiva, está sempre dialogando com os atores e os ambientes – há desde castelos a modernos apartamentos ingleses. Também fica evidente a influência de Mario Bava na iluminação fantasiosa de diversas cenas.

Todas as Cores da Escuridão é um filme ímpar dentro do cinema de gênero italiano. Ao mesmo tempo em que rompe totalmente com a premissa costumeira do giallo – não há nenhum assassino misterioso, mas uma jovem mulher com traumas de infância que acaba se envolvendo com uma seita satânica –, o filme se utiliza muito bem da cartilha do subgênero. Estão ali a atmosfera psicodélica, a excepcional música de Bruno Nicolai, a fotografia de cores bem sacadas, a trama cheia de desvios e, é claro, as mulheres maravilhosas.

Por sinal, Sergio Martino é do time dos cineastas que sabem como filmar uma mulher. Entre as beldades que tiveram o prazer de aparecer em suas imagens, estão Edwige Fenech, Anita Strindberg, Tina Aumont, Suzy Kendall, Ursula Andress e Barbara Bach. A parceria com Fenech, para além do giallo, também em comédias eróticas, rendeu alguns dos melhores momentos da musa francesa no cinema.

Apesar de subestimado (Sergio Martino é um nome menos cotado nos principais livros sobre o horror italiano), o cineasta merece um lugar no hall dos grandes. Além dos ótimos giallos mais tradicionais,  fez o celebrado Torso em 1973 (considero mais fraco que os quatro anteriores), filme que constrói a importante ponte entre o giallo e o slasher. Martino navegou bastante pelo cinema de gênero, fazendo de tudo, desde policial a comédias eróticas e filmes de canibais. Mesmo nos resultados mais irregulares, deixou a marca de um cineasta que sabia muito bem o que estava fazendo. 

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