fulci psicodélico

Na santíssima trindade do horror italiano, Lucio Fulci é reconhecido até hoje pelos exageros “gore”, as cenas sangrentas e repulsivas que fizeram de filmes como Zombie (1979) e Terror nas Trevas aka The Beyond (1981), clássicos absolutos do gênero. Já Mario Bava e Dario Argento, os outros dois integrantes do power trio, costumam ser lembrados pelos giallos que lançaram, respectivamente, nas décadas de 60 e 70.

Essa é uma visão muito reduzida da obra dos três. Assim como Bava e Argento se aventuraram por outros estilos do cinema fantástico, Fulci realizou alguns giallos no início dos anos 70. Entre eles, o delirante Uma Lagarta com Pele de Mulher, de 1971.

Após créditos iniciais em tons lisérgicos, uma mulher aparece desesperada no vagão de um trem. Os típicos e cinzentos passageiros londrinos se transformam em uma orgia de jovens completamente nus. O vagão também dá lugar a um corredor todo branco. Um grito e uma queda no vazio. Suspensa no ar, a mulher atormentada depara-se com uma loira seminua. A trilha esquece a tensão e parte para a doçura enquanto as duas transam em uma cama vermelha. Este é mais um sonho que Carol Hammond, interpretada pela brasileira Florinda Bolkan, descreve ao seu psicanalista.

A loira provocante é a vizinha de porta de Carol, Julia Dührer (Anita Strindberg), uma ex-atriz viciada em drogas que dá festas diariamente para qualquer hippie que apareça. Em outro devaneio narrado ao psicanalista, as cenas se repetem, mas dessa vez com um desfecho sangrento. Ela apunhala três vezes o peito de Julia. O psicanalista explica que o assassinato no sonho sugere o sentimento de culpa do subconsciente de Carol, dividido entre o desejo e a repulsa à vida desregrada da vizinha. A manhã acorda e a polícia aparece, Julia Dührer foi realmente assassinada. E a cena do crime é idêntica ao sonho da protagonista.

Um assassinato cometido durante um sonho? Esse é o mote para o habilidoso giallo de Lucio Fulci. A história começa a se desenvolver e outros personagens suspeitos logo dão a caras. Um marido infiel, uma nora estranha, um pai que recebe telefonemas anônimos, dois hippies alucinados… Saídas típicas do subgênero mais aclamado do horror italiano.

O termo giallo nasceu no final da década de 20, quando uma enxurrada de livros baratos com histórias de mistério foi lançada na Itália. As capas vagabundas geralmente traziam o fundo amarelo, por isso o nome giallo (amarelo, em italiano). Com o tempo, até romances de figuras consagradas da literatura policial como Agatha Christie e Edgar Wallace começaram a ser intitulados dessa forma na terra da bota.

Como subgênero cinematográfico, o giallo só apareceu no começo dos anos 60, em duas obras-primas de Mario Bava. Se Olhos Diabólicos (aka La Regazza Che Sappeva Troppo), de 1963, é considerado o pai da criança, é em Seis Mulheres Para O Assassino, de 1964, que vários clichês são estabelecidos. A plasticidade dos crimes, as cores exageradas, as lindas e sensualíssimas mulheres, os assassinos misteriosos e sádicos, trilhas sonoras bem sacadas e atmosferas contagiantes.

O giallo ficou um tempo em baixa até que o novato Dario Argentou estourou em 1970 com o filmaço O Pássaro das Plumas de Cristal. Aí foi o verdadeiro boom, filmes no estilo tomaram conta do país. Alguns dos giallos mais clássicos são A Tarântula do Ventre Negro (1971), de Paolo Cavara, O que Fizeram Com Solange? (1972), de Massimo Dallamano, Prelúdio Para Matar (1975), de Argento e A Casa das Janelas que Riem (1976), de Pupi Avati.

E Uma Lagarta com Pele de Mulher preenche todos os requisitos do giallo, apesar de ter uma trama atípica. Em vez de um misterioso assassino em série, aqui temos um único assassinato cuja identidade do criminoso é logo revelada. O mistério está em descobrir como o sonho de Carol se tornou realidade.

O filme explora bastante a relação entre a sociedade engravatada e careta com os hippies da época. No fim, todo mundo tem algo a esconder. Agatha Christie, influência assumida de nove em cada dez giallos (diz a lenda que um produtor obrigou Dario Argento a ler vinte e sete livros da inglesa antes de dirigir o clássico Prelúdio Para Matar), lançou o livro A Terceira Moça em 1966, repleto de drogas psicodélicas, “pavões” da Swingin’ London, mulheres atormentadas e assassinatos. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Entre os trunfos da obra de Fulci, estão a trilha magnífica de Morricone (a suave canção tema está entre as melhores do compositor), a montagem (de Giorgio Serrallonga, também montador de Por uns Dólares a Mais de Sergio Leone) e o trabalho de câmera (a fotografia psicodélica é de Luigi Kuveiller, que pouco depois faria mágica em Prelúdio Para Matar, de Argento). O clima lisérgico, seja nas cenas de viagens de LSD ou em uma perseguição dentro de um gigantesco órgão de igreja, é instigado pelo frenético uso do zoom em cortes rápidos. A câmera na mão trepidante deixa bem claro o estado mental da acusada.

Sentindo-se paranóica e considerada a principal suspeita, Carol segue para uma clínica de repouso. E é lá que acontece uma das cenas mais espetaculares da filmografia de Fulci. Acossada por um hippie, a jovem foge para dentro da casa e encontra vários cachorros vivos pendurados com as barrigas rasgadas e os órgãos pulsando em sangue. Seu desmaio é inevitável. A cena é tão chocante que Lucio Fulci precisou provar à justiça italiana que não matou nenhum animal. O responsável pelos efeitos especiais, Carlo Rambaldi, ganharia vários prêmios Oscar nos anos seguintes em sucessos de Hollywood como Alien – O Oitavo Passageiro, King Kong e ET – O Extraterreste.

A sofisticação do horror é a grande diferença dos filmes de Lucio Fulci para a maioria dos diretores do gênero. Em sua filmografia, há dezenas de momentos emblemáticos como, por exemplo, a luta entre um zumbi e um tubarão nas profundezas do mar caribenho (Zombie) e a grotesca cena de uma mulher vomitando as próprias vísceras (Pavor na Cidade dos Zumbis).

Após Uma Lagarta com Pele de Mulher, Lucio Fulci voltou a trabalhar com a musa brasileira Florinda Bolkan em outra incursão no giallo. Não se Tortura um Patinho, de 1972, é uma evolução clara da obra anterior. No lugar da Londres provocante e hippies encharcados de LSD, há uma bucólica cidade no sul da Itália e suas crianças assassinadas, em trama repleta de elementos fortes como magia negra e pedofilia. Por causa do filme, Fulci foi excomungado pelo Vaticano e viu sua carreira declinar nos anos seguintes. O sucesso só apareceria em 1979, na obra-prima Zombie.

Fulci era considerado um autor menor do horror italiano antes do êxito estrondoso de Zombie. O estrago foi tão grande que o estilo do cineasta tornou-se a referência principal para a geração italiana dos anos 80. Fulci seguiu no início da década arrebatando outros clássicos sobrenaturais como The Beyond, Pavor na Cidade dos Zumbis e A Casa do Cemitério. Até que em 1982, voltou-se novamente ao giallo com o sádico O Esquartejador de Nova Iorque, em que o assassino dilacera as vítimas simulando a voz do Pato Donald.

O sadismo é a marca registrada do cinema de horror italiano em geral. No caso de Lucio Fulci, todos os limites são extrapolados. “O orçamento é a única diferença entre Dario Argento e eu”. Não é bem assim, mas menos badalado que o seu “primo rico”, Fulci segue, treze anos após sua morte, como o diretor que elevou o horror a mais inventiva plasticidade cinematográfica. E desse trono, ele certamente não descerá.

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Texto requentado. Publicado anteriormente na RockPress.
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