one, two, three

Um dos rebentos mais geniais de Billy Wilder, Cupido Não Tem Bandeira, deveria ser introduzido com um aviso para que o espectador desse uma boa respirada e guardasse todo o fôlego possível para a sessão. São duas desenfreadas horas de um fino humor que não poupa ninguém.

Lançado em 1961, ano em que foi levantado o muro de Berlim, o filme de Wilder disserta sobre a guerra ideológica entre comunistas e capitalistas. E o cineasta buscou o mesmo palco que, treze anos antes, rendeu em A Mundana, a sátira aguda do encontro entre a Alemanha destruída e o “ombro amigo” dos Estados Unidos. Logo após a Segunda Guerra, Wilder já demonstrava uma leitura privilegiada da situação. O mesmo acontece em  Cupido Não Tem Bandeira, certamente um dos filmes mais inteligentes sobre a Guerra Fria.

Billy Wilder está ali rindo dos dois lados. Desfilando por todos os estereótipos possíveis, personagens capitalistas e comunistas se revezam no trono do mais patético. Na trama, Mr. MacNamara, um representante norte-americano da Coca-Cola na Alemanha, precisa cuidar da filha do chefe, enquanto ela se apaixona por um jovem politizado da Alemanha Oriental. Para a loucura do industrial, os dois se casam e pretendem ir para a União Soviética. Quando o pai da menina resolve viajar para Berlim, o caos está armado.

É nesse momento que o filme de Wilder garante o pulo da obra-prima. A sequência em que Mr. MacNamara precisa transformar o jovem comunista num nobre conde, desprovido de qualquer ranço ideológico soviético, não permite que o espectador não se entregue às gargalhadas. Por sinal, é preciso louvar a montagem de Daniel Mandell, também montador de importantes clássicos como Os Melhores Anos de Nossas Vidas, de William Wyler e Vive-se Uma Só Vez, primeiro filme americano de Fritz Lang. O timing de Cupido Não Tem Bandeira é arrebatador, a última meia hora parece durar cinco minutos.

A parceria entre Mandell e Wilder data da minha fase favorita do cineasta austríaco, a virada da década de 60. Depois da adaptação de Agatha Christie, Testemunha de Acusação (1957),  o diretor enfileirou um bom número de comédias preciosas. Curioso que o filme mais premiado dessa época, Se Meu Apartamento Falasse, de 1960, é o que menos gosto. No hall de obras-primas, coloco Cupido Não Tem Bandeira e Irma La Douce (1963), além do insuperável Quanto Mais Quente Melhor (1959) – esse montado por Arthur P. Schmidt, velho colaborador de Wilder.

Em todos esses filmes, uma impressão me é clara: mais do que provocar o riso, as cenas de Billy Wilder parecem gargalhar por conta própria.

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