tom wolfe e a aristocracia charmosa

Tinha planejado escrever um texto sobre a palestra de Tom Wolfe no Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre, mas o resultado final do encontro entre o jornalista e “a aristocracia charmosa” da cidade foi tão vazio, que nem sei o que falar.

No ano passado, fui na edição com David Lynch e Donovan (absurdamente ignorado pela aristocracia charmosa, precisaram até apresentar o cara: “era um cantor dos anos 60…”) e saí com a mesma sensação: uma noite vazia. Um palestrante falando algo que não parecia interessar a ninguém. Depois uma série de perguntas que não pareciam interessar ao palestrante.

Não havia diálogo. David Lynch queria falar sobre o processo criativo, a imaginação, a platéia queria saber quem matou Laura Palmer. E no fim, Donovan a sós com seu violão cantando pérolas como Mellow Yellow e Season of The Witch enquanto as pessoas levantavam das cadeiras e corriam para casa. Foi um embate entre uma experiência maravilhosa e um momento angustiante ver um dos gênios da música folk tocar naquele evento.

Segunda-feira foi a mesma coisa. Tom Wolfe começou nas previsões apocalípticas, na insistência das pessoas em buscar “o fim das coisas como conhecemos” e acabou desfilando sua ironia em tudo: sexo nas universidades, a realidade como uma fonte de absurdos muito maior que a ficção, a loucura que é a identificação do ser humano por equipes esportivas, Pablo Picasso fora da escola, a arte do “no-hand”, e por aí vai. Depois, espaço para uma meia dúzia de perguntas dispensáveis e ponto final.

Novamente senti o encontro entre a experiência maravilhosa e o momento angustiante. Ver o sujeito que me fez acreditar que o jornalismo poderia ser algo interessante ser engolido pela falta de interesse da aristocracia charmosa de Porto Alegre foi tão forte quanto a imagem de Donovan, um ano antes, cantando para quase ninguém. Duas noites que guardarei para sempre, é claro, Donovan e Tom Wolfe são referências eternas para mim. Mas também serviram para aumentar meu desprezo por um tipo de gente que entope palestras, salas de cinema, debates, exposições, seminários, cursos de pós-graduação: os consumidores de cultura.

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6 respostas em “tom wolfe e a aristocracia charmosa

  1. Entendo perfeitamente o que queres dizer. Foi trite ver perguntarem ao Tom Wolfe (ao TOM WOLFE!) qual a diferença entre New Journalism e Jornalismo Literário, e foi triste ver jornalistas que respeito (inclusive os meus chefes) desprezarem a palestra porque o Wolfe não ficou o tempo inteiro repetindo tudo que tinha dito no Radical Chique & O Novo Jornalismo e falando incessantemente de uma escola que ele tinha retratado há quase 50 anos. Eu ainda adorei, e olha que ouvi o discurso duas vezes (na coletiva de imprensa ele falou mais ou menos a mesma coisa).

  2. Não poderia ser mais preciso em suas palavras.

    Ao menos no que se refere à última sentença. Fico com Adorno, a indústria cultural é o fim. E os consumidores culturais então…

    Assumo que não conheço Tom Wolfe, apesar de que de Donovan sou fã faz tempos.

    Só sei que todos somos artistas, poucos se dão conta disso – e pior, exigem cultura de massa desses artistas. Para engolir, e cagar.

    (tá, peguei pesado. mas genericamente, assim é.)

  3. quem insiste em retratar o fim da… como a conhecemos é o próprio na real, já que tem 23 artigos com esse título. se isso foi ironia também, dai já fica muito além da minha parca capacidade intelectual. mas no resto é isso ae merrmo.

  4. Leo

    …e eu fico me perguntando se alguém sabe o nome do ‘Capitão Barato’ conversando [junto com o Lesh] com o o Wolfe, no final da decada de 60?

    ***

    Se ninguém sabe quem é Donovam imagina acertar o nome do cara [que só é mais lembrando quando tem barba]?

    ***

    Deles eu tenho uns doze cds

    e + uns 10 piratão ao vivo [onde muitos são ótimos]

    ***

    mrlx

  5. Infelizmente nos tempos de hoje a cultura descartavel…a música não tem nenhum valor ,quem dera seus executores,Tom Wolfe abriu as portas da psicodelia orgânica com o “Teste do ácido do refresco elétrico”,minha experiência foi maravilhosa,pessoas fantásticas,e Donavan com seu folk rock adorável!!!simplesmente,é dar pérolas aos porcos.

  6. Aiai, e mais uma vez a coisa vai se repetir, dessa vez expandida pra SP. Só de imaginar a chance de falar ao vivo com esses caras ser abafada pela apatia mental de uma meia dúzia… é de matar. Valem as palavras de Henri Michaux: aqueles que têm medo de jogar pérolas aos porcos acabam eles mesmos se tornando os porcos.

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