pela montagem

Quando Jean-Luc Godard – sempre recorro a ele pois se trata de um cineasta que é tão Picasso quanto Apollinaire – começou a fazer seus primeiros trabalhos em vídeo, sua idéia era exatamente investigar possibilidades de montagem. Para o francês, montagem é, antes de qualquer coisa, a composição dos objetos em quadro. Por isso a vantagem do vídeo, que facilitava a manipulação de várias imagens ao mesmo tempo na tela.

Voltando alguns bons anos antes das experiências godardianas em vídeo, recorro a Yasujiro Ozu, um cineasta que teve seu trabalho calcado na montagem dentro da própria imagem. Ozu é famoso pelos seus planos estáticos, costumeiramente enquadrados com a câmera um pouco acima do chão. A ausência de movimento acabou rendendo-lhe o rótulo de cineasta da contemplação.

No cinema de Ozu, questão primordial é a composição, a montagem dentro do plano. Um belo exemplo é a obra-prima Um Albergue em Tóquio, de 1935, filme magistralmente fotografado e montado por Hideo Shigehara. No primeiro momento, há um pai e dois filhos que percorrem uma estrada. O homem está atrás de emprego e não consegue nada. Sem apelar para primeiros planos e cortes que evidenciem situações, Ozu reforça a dramaticidade compondo imagens que invariavelmente trazem os personagens à frente de locais que remetem ao trabalho. Chaminés, guindastes e galpões envolvem a jornada dos três. Ozu faz questão que todos dividam o mesmo espaço. O ápice dessa forte construção imagética é quando  família, em primeiro plano, resolve fazer um almoço imaginário pois não há dinheiro para o arroz, enquanto ao fundo, indústrias funcionam a todo vapor.

Essa possibilidade de reunir idéias em apenas uma imagem, algo extremamente característico da obra de Ozu, sempre foi celebrado por Godard como uma das grandes singularidades do cinema. E ainda há a questão estética. Nesse caso, tenho predileção pela fase muda do cineasta japonês, penso que suas imagens quietas falam ainda ainda mais alto, como é o caso de Um Albergue em Tóquio. O que dizer de um filme em que praticamente todas as sequências externas revelam o chão e o céu?

Um Albergue em TóquioUm Albergue em TóquioUm Albergue em TóquioUm Albergue em TóquioUm Albergue em TóquioUm Albergue em Tóquio

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