nova vlnà: sobre a czech new wave

Para finalizar a série de textos sobre a Czech New Wave que publiquei nesse último mês, faço um resumo com alguns aspectos mais pontuais do novo cinema produzido na Tchecoslováquia durante a década de 1960. Antes, coloco os links para todos os textos publicados.

Os amores de Miloš Forman

Sonhos e pesadelos

Jan Němec e os encontros com o absurdo

As Pequenas Margaridas

As imagens de Věra

Valerie & Her Week of Wonders

Um Dia, Um Gato

Žert

Jiří Menzel e a impotência de uma nação

O Kral Majales

O Baile dos Bombeiros

o início

Não existe um início tão demarcado da Czech New Wave, não houve nenhum momento emblemático como a consagração da Nouvelle Vague de Truffaut no Festival de Cannes em 1959, ou os manifestos do Free Cinema e do Novo Cinema Alemão. O que caracteriza o começo da Czech New Wave é a estréia de cineastas que, entre 1963 e 1964, propunham uma ruptura à estética do Realismo Socialista que imperava na produção cinematográfica do país. Entre os importantes nomes que debutaram nesse período estão Miloš Forman, Vera Chytilová, Jaromil Jireš e Jan Němec.

Morgiana

o fim

O final da Czech New Wave é um fato político. Após a invasão dos tanques soviéticos em Praga, em 1968, os responsáveis pela produção cinematográfica do país (que era totalmente bancada pelo governo) foram trocados. A pequena abertura política que abriu espaço para as rupturas do cineastas tchecoslovacos foi substituída pela truculência do socialismo. Em 1969 praticamente todos os filmes dos cineastas identificados à Czech New Wave foram banidos. Diversas produções foram interrompidas no meio e alguns diretores proibidos de fazer cinema. O crítico de cinema Peter Hames coloca o filme Morgiana (1972), de Juraj Herz, a última parceria com o genial diretor de fotografia Jaroslav Kucera, como uma espécie de epitáfio do movimento. Outro filme que pode ser visto como um belo canto dos cisnes é a obra-prima Valerie & Her Week of Wonders (1970), de Jaromil Jireš. O conto de fadas surrealista traz diversos elementos explorados pela Czech New Wave que acabaram desaparecendo no decorrer da década de 70.

A Piada

os antecessores

Há uma série de cineastas anteriores à renovação da década de 1960 que, de certa forma, anteciparam algumas preocupações estéticas da Czech New Wave. Entre os principais nomes, estão Frantisek Vlacil de O Pombo Branco (1960), e Marketa Lazarová (1967), Vojtech Jasný de Um Dia, Um Gato (1963) e Todos Bons Cidadãos (1969), Elmar Klos de A Pequena Loja da Rua Principal (1965) e Karel Kachyna de A Orelha (1970). Filmes como Um Dia, Um Gato e, principalmente, o épico surrealista Marketa Larazová (considerado por muita gente o melhor filme tcheco de todos os tempos) estavam em completa sintonia formal e temática com as obras da nova geração.

Todos Bons Compatriotas

a ruptura

A ruptura provocada pelo cinema da Czech New Wave é clara: fazer algo oposto aos filmes que seguiam à risca o Realismo Socialista, condição dominante das produções de diversos países do Leste Europeu naquele período. Em entrevistas, Miloš Forman costuma comentar que em seus primeiros trabalhos, queria mostrar uma face mais verdadeira da juventude de seu país, algo que ele não via nas produções anteriores, por isso a influência do cinema-verité. Não deveria existir o filtro heróico do Realismo Socialista. Essa ruptura, em outros casos, atingiu tons bem mais agudos, como é o caso de Jan Němec e Věra Chytilová, que fizeram de sua produção surrealista um episódio ímpar da cinematografia dos anos 60.

valerie & her week of wonders

absurdo

A tendência ao absurdo foi o grande marco do cinema tchecoslovaco dos anos 60. Cineastas como Jan Němec e Věra Chytilová não economizaram esforços para desorientar olhares em obras como A Festa e Os Convidados (1966), de Němec, e Fruto do Paraíso (1969), de Věra. O surrealismo, o Teatro do Absurdo e o realismo mágico da literatura tcheca do entre-guerras exerciam forte influência sobre a produção cinematográfica do país. Durante a década, houve uma efervescência absurdista, motivada pelas arriscadas encenações de peças de Eugène Ionesco e Samuel Beckett, além das primeiras traduções dos livros de Franz Kafka, nascido em Praga, para o idioma tcheco. Como disse o crítico espanhol Angel Quintana: “a recuperação da obra de Kafka representou uma reabilitação do sentimento do absurdo e serviu para estabelecer uma conexão entre o absurdo Kafkiano e o absurdo gerado pelo totalitarismo”.

A Pequena Loja da Rua Principal

devětsil

A grande referência vanguardista da Czech New Wave foi o Devětsil, grupo surrealista tchecoslovaco, cuja produção entre as décadas de 20 e 40 foi bastante representativa no país. Amigos de colégio, os principais integrantes do Devětsil começaram a se reunir, influenciados pelo Dada, após a Primeira Guerra Mundial. Entre os principais nomes, estão Karel Teige, que posteriormente desenvolveu estudos no campo do design e da arquitetura; Vítězslav Nezval, poeta, amigo de André Breton, que lançou livros importantes como Valerie & Her Week of Wonders (1935) e o erótico Edition 69 (1931); e Vladislav Vančura, uma das mentes mais ativas do movimento, responsável por roteiros, filmes, textos teatrais e livros como Marketa Lazarová (1931) e Um Verão Caprichado (1925), ambos filmados nos anos 60. A tradição do Devětsil ainda foi relembrada no filme Um Dia, Um Gato, cujo protagonista é interpretado por Jan Werich, famoso ator das peças surrealistas do grupo.

 Marketa Lazarova

literatura

O surgimento dos novos cineastas estava estreitamente ligado ao nascimento da nova literatura tchecolosvaca dos anos 60. Era todo um contexto de renovação. E muitos filmes foram baseados em livros daquele período. Peter Hames cataloga nada menos que vinte e quatro obras nascidas da literatura. Entre as mais importantes, estão a parceria entre Jaromil Jireš e Milan Kundera em A Piada (1969) e entre Jiří Menzel e Bohumil Hrabal em Trens Estreitamente Vigiados (1966) e Andorinhas Por Um Fio (1969). Hrabal ainda teve o seu livro de contos Pérolas das Profundezas transformado no irregular filme de episódios de mesmo nome, lançado em 1965, com curtas de Menzel, Chytilová, Schorm, Němec e Jireš. O interessante das adaptações é que, muitas vezes, o roteiro do filme era desenvolvido em parceria pelo diretor e o autor do livro, como é o caso de A Piada, finalizado antes mesmo de sua versão literária.

O Cremador

fuga

Uma característica forte da Czech New Wave é a fuga da grandes cidades tchecoslovacas. Com exceção de Miloš Forman e Evald Schorm, que trabalharam uma temática mais urbana, a grande maioria dos cineastas realizou suas obras em vilarejos, florestas e pequenos povoados. É o caso de Iluminação Íntima (1965), de Ivan Passer, Valerie  & Her Week of Wonders, Um Verão Caprichado, Trens Estreitamente Vigiados, Fruto do Paraíso, Marketa Lazarová, Um Dia, Um Gato, entre vários outros. O afastamento das cidades, além de favorecer o desenvolvimento de personagens, no sentido de sua representatividade alegórica, também era um marco da apropriação surrealista do conto de fadas, uma tradição literária que muitos filmes tchecoslovacos assumiram.

As Pequenas Margaridas

traumas

Há dois fortes traumas que permeiam a produção da Czech New Wave. Um tópico inevitável foi a Segunda Guerra Mundial. Foram quatro filmes importantes sobre o assunto: Diamantes da Noite (1964), de Jan Němec, A Pequena Loja da Rua Principal (1965), de Kadár e Klos, Trens Estreitamente Vigiados (1966), de Jiří Menzel, e O Cremador (1969), de Juraj Herz. Exceto a obra de Němec, todos os outros mostram um pouco da fácil submissão dos tchecoslovacos aos nazistas, em muitos casos, tendo que entregar amigos ou até mesmo familiares para os campos de concentração. O interessante é que esse trauma moral não foi transformado em espetáculos dramáticos pela Czech New Wave. Pelo contrário, a auto-ironia é o que dá o tom das obras. A diferença fica por conta da abordagem angustiante de Jan Němec em Diamantes da Noite, quando dois jovens precisam fugir de nazistas numa floresta. Memória e alucinação se misturam no primeiro filme do diretor. O trauma de 1968, quando a União Soviética invadiu a Tchecoslováquia para acabar com onda libertária que eclodiu com a Primavera de Praga, foi rapidamente transformado em produção. No ano seguinte, choveram filmes que denunciavam diretamente os desmandos do socialismo. Filmes como Andorinhas por um Fio e A Piada, buscavam na violência Stalinista da década de 50, a crítica aguda à hipocrisia do socialismo soviético. A Orelha, de 1970, é devastador. O filme se passa, praticamente em sua totalidade, dentro de um apartamento de um casal extremamente paranóico que precisa apagar qualquer pista de uma possível traição ao partido. Nem é preciso dizer que os três filmes foram banidos.

O Choro

olhares

Na segunda metade da década de 60, a Tchecoslováquia chamou atenção do mundo inteiro com a efervescência cultural e a violenta invasão soviética, comandada pelo secretário geral do Partido Comunista, Leonid Brezhnev. Jean-Luc Godard e Constantin Costa-Gavras, dois cineastas que respiravam temas políticos naquele momento, voltaram seus olhares à questão. Em Pravda, filme de 1969 que Godard realizou com seu Grupo Dziga Vertov, o cineasta aproveitou uma temporada em Praga e, clandestinamente, fez uma das obras mais fracas de sua fase maoísta. Tanto que ele só finalizou pela insistência de Jean-Pierre Gorin. O mais relevante de Pravda é a posição controversa de Godard sobre a situação tchecoslovaca. Para o francês, antes mesmo dos tanques soviéticos, o país já havia sido invadido pela cultura ocidental imperialista. A própria Věra Chitylová, que aparece no filme, é colocada como uma versão local da Paramount. Costa-Gavras, ao contrário, fez de A Confissão (1970) uma forte crítica à truculência e ao anti-sionismo dos julgamentos forjados do período Stalinista. Há um personagem que acaba preso durante quinze anos por crimes políticos que não cometeu. A última imagem do filme, extremamente emblemática, traz uma pichação de 1968 que diz: “Brezhnev está louco”.

Poster Um Dia, Um Gato

prêmios

Dois rebentos da Czech New Wave levaram Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: A Pequena Loja da Rua Principal, em 1965, e Trens Estreitamente Vigiados, em 1967. Antes de colecionar prêmios da Academia na sua fase norte-americana, Miloš Forman bateu na trave duas vezes com suas produções tchecas: Amores de Uma Loira e O Baile dos Bombeiros (1967) foram indicados. Em Cannes, Um Dia, Um Gato levou o prêmio especial da crítica em 1963 (empatado com Harakiri, de Masaki Kobayashi). O prêmio mais simbólico, entretanto, foi o de melhor diretor no Festival de Berlim de 1990 para Jiří Menzel. O filme? Andorinhas Por Um Fio, banido desde 1969. Assim como ocorreu com o filme de Menzel, após fim do comunismo no Leste Europeu, muitas obras puderam novamente respirar.

Trens Estreitamente Vigiados

bibliografia

Não existe muita bibliografia específica sobre a Czech New Wave. Além dos diversos livros lançados nos Estados Unidos, França e Espanha sobre os Novos Cinemas dos anos 60, há The Czechoslovak New Wave, do crítico inglês Peter Hames, que traz uma análise bem aprofundada do movimento e dos contextos cultural e político daquele período. Também vale a pena dar uma olhada nas entrevistas do livro Czech New Wave Filmmakers in Interviews. É um ótimo livro para entender um pouco mais as cabeças distintas que regeram a explosão cinematográfica da Tchecoslováquia nos anos 60.

Amores de Uma Loira

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4 respostas em “nova vlnà: sobre a czech new wave

  1. Cara

    Há muito tempo eu não lia algo tão ‘novo’ quanto estes teus textos sobre
    o cinema na tchecoslováquia

    Parece um absurdo que isto esteja tão esquecido

    Fico me perguntando como era o cinema na Hungria na decada de 50 quando da invasão russa.

    Será que tinha algo parecido?

    História:

    No dia 23 de outubro de 1956 as forças de segurança abriram fogo contra os estudantes que apoiavam o protesto anti-soviético na Polônia.

    Milhares de húngaros se uniram rapidamente às manifestações contra o regime comunista.

    Mas duas semanas mais tarde, em 4 de novembro, tropas e tanques de guerra soviéticos arrasaram o movimento com um ataque em massa. A repressão deixou milhares de mortos e o comunista reformador Imre Nagy, nomeado primeiro-ministro em 25 de outubro, foi preso e executado dois anos mais tarde.

    Cerca de 180.000 húngaros se refugiaram então na Áustria, único país ocidental vizinho da Hungria que os recebeu com generosidade]

    ***

    abrx

    mrlx

    • No período da invasão soviética na Hungria, o cinema forte do leste, nesse sentido de ruptura, era o polonês. A Hungria começou a se fortalecer um pouco depois, no meio dos anos 60. Tem bastante coisa interessante por lá, incluindo os filmes obrigatórios do Miklós Jancsó, que são um capítulo à parte dentro desse cinema do leste europeu.

      abraço!

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