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If…. é o tipo do filme que parece impossível de ser realizado hoje. Tanto pelos momentos de delicadeza, quanto pela sua violência. Curioso como a obra de Lindsay Anderson, apesar de representar tão bem o período em que foi feita, o ano de 1968, vista atualmente pareça tão à frente do tempo.

A abordagem do universo juvenil de Lindsay Anderson é de uma sensibilidade sem tamanho. Principalmente em algumas questões polêmicas que o cinema ainda não parece ter resolvido bem. No filme, temos dois meninos que acabam se relacionando.  A homossexualidade numa escola tradicional britânica, um eterno tabu, é apresentada em um momento singelo e lúdico. Na seqüência que parece ter inspirado Gus Van Sant em Paranoid Park, em que um menino se encanta pelo  rapaz mais velho que faz exercícios no ginásio, a câmera lenta e a música leve conduzem o encantamento. Depois, eles aparecem dormindo juntos. E o mérito do inglês é filmar o carinho entre os dois com a mesma naturalidade que a cena teria se houvesse uma cama dividida por um homem e uma mulher.

Poucos cineastas abordariam a questão dessa forma. Me parece que é quase impossível retratar a homossexualidade no cinema sem forçar um posicionamento, sem transformar aquilo em apelação emocional ou em escândalo disfarçado de deboche, humor negro. Lindsay Anderson, que era homossexual, filma aquilo tudo com tanto carinho, as cenas não querem chocar, não pedem uma resposta imediata ao espectador.

Quanto à violência de If…., em tempos extremamente conservadores, cheios de gente moralista como essas que, depois da detenção de Roman Polanski, pedem a cabeça do cineasta como se ele fosse um monstro (o que estavam fazendo essas pessoas durante os trinta anos de “fuga” do polonês? Por que não fizeram campanha pela prisão dele? Por que não boicotaram seus filmes? Agora que ele é detido, mesmo com a vítima, vítima da própria mãe também, tendo perdoado, as pessoas se posicionam horrorizadas? É um tremendo falso moralismo, bem característico dos nossos tempos)… Por essas e outras que If… soa como um alienígena no novo milênio. O desfecho, certamente um dos melhores da história do cinema, é inimaginável nos dias de hoje. Nos anos 60, seria o caso das autoridades pedirem a prisão de Lindsay Anderson. Hoje, acredito que a própria sociedade pediria a cabeça do cineasta.

Da mesma forma, não é de costume ver algo tão simples, criativo e poderoso quanto a cena de amor entre Mick Travis (Malcolm McDowell) e uma menina, quando eles trocam beijos de tigre dentro de um bar. E o que dizer dos pequenos detalhes surrealistas? As cenas em preto e branco, o padre que concede o perdão dentro de uma gaveta, os fetos em conserva, a menina que sempre aparece num passe de mágica. Detalhes que amplificam a força de If….

E que continuaram nas duas sequências do filme, Um Homem de Sorte, de 1973 e Hospital dos Malucos, de 1982. A trilogia de Lindsay Anderson, para roubar a expressão de Ray Davies, poderia se chamar: Mick Travis, ou O Declínio e a Queda do Império Britânico. E o interessante é que Anderson não estava interessado em criar uma coerência entre os três filmes. Personagens vão e voltam, alguns guardam o mesmo nome, mas se apresentam com outra abordagem psicológica. As autoridades, em contrapartida, são sempre interpretadas pelos mesmos atores. O que as três obras realmente carregam em comum é a vontade anárquica de destruir as grandes potências da sociedade inglesa. Essa forma que o homem (um inglês então…) se prende e nunca mais consegue soltar.

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