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Amantes

Praticamente toda a ação de Amantes se concentra entre dois atos extremos: um grave, a tentativa de suicídio, e outro, teoricamente, apaixonado, a fuga com a pessoa amada. São os dois ápices da personalidade inconstante de Leonard, um vulcão em erupção vivido por Joaquin Phoenix. No entanto, em momento algum seus problemas se tornam o fio condutor do filme. O grande diferencial está exatamente na forma como o diretor James Gray conduz uma obra cuja premissa não parece tão distante de costumeiros dramas cinematográficos.

O acerto de Gray é deixar os atores existirem. Não há como filmar um vulcão em erupção de forma podada. Quando é preciso, há os planos-seqüência; da mesma forma, há a montagem extremamente cuidadosa que reforça a construção subjetiva da trama. Um exemplo é a cena em que Leonard segue a vizinha Michelle (Gwyneth Paltrow) no metrô. Temos o número exato de cortes para indicar toda a hesitação do personagem. De uma perfeição sutil.

Como também são sutis os planos-seqüência. Eles não estão ali como exercício de virtuosismo,  existem no tempo necessário para que um semblante, um gesto ou um passo para trás possa nos dizer algo mais sobre aqueles personagens. O único plano-seqüência que salta aos olhos é uma marcante cena do terraço.

Na verdade, são duas cenas impactantes em cima do terraço do prédio em que vivem os dois. E completamente diferentes. A primeira recorre ao plano-sequência para extravasar a falta de sintonia entre Leonard e Michelle naquele momento. Ela quer desabafar sobre o homem que ama, ele quer outra coisa. A câmera passa a cena inteira seguindo os corpos que teimam em fugir um do outro. Na segunda cena, há a fragmentação, a investida nos closes,  é um momento forte, Leonard declara seu amor, ela parece corresponder.

Nesse segundo encontro no terraço um detalhe desperta a atenção. Apesar da cena indicar o clímax amoroso do filme, afinal é o esperado beijo que Leonard parece querer desde os primeiros momentos com a vizinha, a trilha sonora traz apenas o som forte de um vento gelado. Não há nenhuma música. Ela aparece em outros momentos do filme, nesse não. Com o vento, Gray parece dizer: antes de qualquer coisa, essa é uma cena de desespero.

Porque Michelle é tão vulcão em erupção quanto Leonard.  Tenho a impressão que James Gray poderia fazer outro belíssimo filme com a mesma história, só que protagonizado pela vizinha, sob o ponto de vista da janela de Michelle.  Os dois parecem dividir a necessidade pela instabilidade.

O problema é que, para Leonard, a paixão pela vizinha representa exatamente a fuga da vida estável que encaminham a família e o namoro com a menina judia – de quem ele realmente parece gostar. Para Michelle, ao contrário, ele representa esse porto seguro, alguém com que ela sempre pode contar nos piores momentos. Amantes mostra que, muitas vezes, amor é essa necessidade louca de turbulências. E as consequências disso.

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