ad infinitum

Quimera, 2003, Projeção e vinil adesivo, 250 x 415 x 280 cm, Regina Silveira

Como uma arte que se apropria de tantos elementos da realidade, acaba produzindo um resultado tão irreal? “Essa é a questão”, respondeu e abriu um sorriso Regina Silveira, que esteve em Porto Alegre para comentar um documentário didático sobre arte contemporânea do qual é protagonista. Irreal talvez não seja a melhor palavra, prefiro outro-real. Um real que não costuma ser imediatamente reconhecido e aceito por todos, mas que está totalmente exposto ali. Realidades deslocadas que podem assustar. Como diz Christian Zimmer sobre o público de cinema (mas poderia ser sobre todos os públicos): “eles vêem filmes para reconhecer, não para descobrir”.

Regina Silveira trabalha muito com esse deslocamento em elementos primários do nosso planeta: luz e sombra. Fala-se em distorção ou deformação, gosto mais de transformação ou até mesmo da formação, já que muitas vezes há realmente uma forma totalmente nova, uma forma que pode se alimentar do imaginário do objeto em si, mas que inevitavelmente acaba criando um novo imaginário, tanto na relação como na ausência de relação imediata.

Me salta principalmente a Quimera que ela exibiu em Bogotá, uma pequena lâmpada que produz uma enorme sombra. A impressão que tenho ao olhar uma imagem da obra é de ver uma enorme e imponente rainha com um assustador vestido negro e o rosto todo maquiado de um fantasmagórico branco. No fundo, a transformação de uma lâmpada que ilumina uma sombra gigantesca numa rainha gorda toda de preto não é tão absurda assim. Há um parentesco entre as imagens.

Um amigo enche o apartamento de retratos dele mesmo – todas as idades – para nunca esquecer que o próprio homem é um símbolo contínuo de transformação. Como também são as luzes e sombras tão apropriadas por Regina Silveira. O que acontece é que, muitas vezes, quando a transformação é posta em destaque, quando é assumida, assinada, pode causar repulsa em certas cabeças acostumadas. E o costume é o maior crime do universo.

Sobre a transformação, gosto das palavras de Picasso sobre a sua famosa cabeça de touro feita com partes de uma bicicleta “espero que ela seja encontrada um dia por um ciclista que irá reconvertê-la num selim e num guidão e que depois a bicicleta remontada seja novamente transformada numa escultura e depois numa bicicleta outra vez e assim por diante, ad infinitum”.

Tête de Taureau, 1942, Pablo Picasso.

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