nova vlnà: os amores jovens de miloš forman

Nas primeiras cenas de Black Peter, a estréia em longa-metragem de Miloš Forman, de 1963, o adolescente Petr vive a expectativa do seu primeiro dia de trabalho. Sua missão é ficar atento às pessoas que furtam artefatos pequenos de uma loja, há toda uma postura psicológica que ele deve vestir para não incomodar os clientes. Logo ele fica desconfiado de um senhor que acaba saindo sem comprar nada. Petr não sabe o que fazer. Uma das vendedoras diz que ele deve seguir o velho. Ele o faz, passa o dia inteiro atrás do homem e, completamente atrapalhado, não consegue abordá-lo.

Forman imprime uma força enorme em Black Peter, pois resolve mostrar os dilemas do rapaz sem tentar criar uma trajetória. Não temos vários momentos do cotidiano de Petr, há poucas situações, extremamente simbólicas, que são exploradas ao máximo. Com apenas uma seqüência, conseguimos captar muito bem a essência daquele personagem. Para isso, a câmera-testemunha do cineasta tcheco é fundamental.

Durante a marcante seqüência no baile, Forman  está observando aqueles jovens, o protagonista Petr, a gatinha com que ele sai, Pavla, uns conhecidos brigões e diversos anônimos. A força dos rostos e corpos é impressionante. A influência do cinema-verité é evidente nos rostos de paixão, de alegria,  de medo, coragem, vergonha. A impressão é que Forman poderia se deter a qualquer um ali na festa. No fundo, todos são protagonistas de Black Peter.

Black Peter

Já em Amores de Uma Loira, filme de 1965, mais badalado e que inclusive concorreu ao Oscar (mas que considero inferior ao primeiro),  Forman não é tão observador, não se entrega tanto a um momento como fez no baile de Black Peter (apesar de haver outra cena de baile, entretanto com intenções mais paródicas). Mesmo assim, temos uma personagem e seus conflitos juvenis. Andula, uma menina da classe operária que vive de sonhos e paixões numa pequena cidade. Até que ela encontra um jovem pianista, tem uma noite de sexo e depois vai procurá-lo em Praga. Dentro dessa preocupação em documentar o universo juvenil, uma cena é representativa.

Amores de Uma LoiraDe forma simples, Forman consegue imprimir todos os anseios da noite de amor entre os dois. Ela, desconfiada; ele, desajeitado. O ápice da cena é o diálogo pós-sexo, filmado de cima, num enquadramento cheio de provocação e erotismo. Ele compara o corpo dela ao violão cubista de Picasso, ela nem sabe quem é o pintor. Uma cena que representa muito do apuro estético da Czech New Wave e da alienação de uma geração que não tinha acesso a coisas que fugiam daquele mundo. Ainda mais um violão subversivo que não parece um violão.

Essa ruptura geracional que Miloš Forman e seus co-roteiristas, Ivan Passer e Jaroslav Papousek (também realizadores do novo cinema tchecoslovaco), protagonizaram em seus cinemas, fica bem evidente nas relações entre personagens jovens e velhos. Em Black Peter, o adolescente sempre parece distante quando está ouvindo os velhos, as ordens do chefe, os sermões do pai, as perguntas chatas da mãe. O semblante do rapaz indica que ele está em outro lugar. O mesmo acontece com Andula na casa de seu amante, quando os pais do jovem a enchem de perguntas e ela mal abre a boca.

Forman sempre diz que sua intenção era mostrar uma face mais verdadeira da Tchecoslováquia, coisa que ele não via no cinema produzido até então no país. Talvez por isso ele dê tanta importância aos rostos, principalmente aos rostos silenciosos, aqueles olham, que ouvem – como na cena em que o pai de Petr fala sobre as responsabilidades da vida. Durante praticamente todo o monólogo do velho, nós vemos o rosto quieto e desinteressado do jovem.

Black Peter

Também é extremamente simbólico o fato de O Baile dos Bombeiros, o terceiro longa-metragem de Forman – de 1967, que também concorreu ao Oscar –, trazer uma celebração feita por velhos em que nada dá certo. É um evento antiquado, moribundo. E os jovens, tão protagonistas dos outros filmes, dessa vez mal têm espaço.  Só aparecem no momento em que os velhos bombeiros praticamente obrigam garotas a participarem de um concurso de beleza (dá pra ver nas expressões que elas queriam fazer outras coisas). E a coroa, por sinal, acaba indo para uma velha desesperada enquanto todas as jovens se escondem no banheiro. O filme acabou banido na Tchecoslováquia e o cineasta se mandou para os Estados Unidos.

O abraço aos dilemas juvenis dos primeiros filmes de Miloš Forman apresenta uma universalidade que às vezes escapa de boa parte das obras da Czech New Wave. Forman parece ser o cineasta mais sintonizado com os problemas expostos por outros realizadores dos novos cinemas da mesma época: a mudança de geração, a falta de sintonia entre jovens e velhos. Por mais que trabalhem com alguma referência ou alegoria sobre a situação da Tchecoslováquia dos anos 60, os conflitos desenhados por Forman são completamente acessíveis a quaisquer mundos. E o mais importante, atemporais.

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