nova vlnà: sonhos e pesadelos

O trauma da Segunda Guerra Mundial também esteve presente nos filmes da Czech New Wave. Um trauma extremamente moral. A Pequena Loja da Rua Principal (1965), de Kadár e Klos, e Trens Estreitamente Vigiados (1966), de Jiří Menzel, dois filmes que ganharam Oscar, tratam da facilidade com que muitos tchecoslovacos se submetaram aos nazistas.

A Pequena Loja da Rua Principal traz a história de um homem que precisa entregar  uma velhinha judia aos alemães. O interessante é que, mesmo tendo tudo para descambar para o dramalhão, dada a relação forte entre os dois, o filme faz um relato onírico e poético daquela situação. O desfecho é emocionante.

O filme foi dirigido pela dupla Ján Kadár e Elmar Klos, cineastas anteriores a Czech New Wave (Klos, inclusive, começou a filmar na década de 30). Embora não chegue perto da experimentação radical de boa parte dos novos cineastas, A Loja da Rua Principal costuma ser colocado dentro das obras pertencentes aquele universo. Existe um forte parentesco, principalmente, nas cenas mais líricas.

A Loja da Rua Principal A Loja da Rua Principal

Se A Pequena Loja da Rua Principal é o sonho, O Cremador, filme de Juraj Herz de 1969, é o pesadelo. A obra coloca o espectador em um transe encaminhado pelos monólogos de Kopfrkingl, um cremador obcecado pela morte. A fala mansa e os olhos apáticos do sujeito se contrapõem ao aspecto surreal da trama. Tudo acontece, mas ao mesmo tempo temos impressão de que nada está acontecendo. Cenas absurdas se multiplicam, como a que o protagonista leva sua família para a câmara dos horrores de um parque de diversões. Tudo em O Cremador é sinistro.

A história se passa nos primeiros anos da Guerra, quando Kopfrkingl é convencido por um amigo nazista a aceitar o seu “sangue alemão”. Mas há um problema grande, ele é casado com uma judia. A relação entre o humor negro com o terror psicológico ganha enorme proporção, principalmente, no momento em que o protagonista começa a perceber os trejeitos efeminados do filho e busca a explicação na origem judia da família. O desfecho é atordoante.

O Cremador O Cremador

Apesar das cenas fortes, O Cremador foi um dos poucos filmes do período a não ser censurado. Nascido na parte eslovaca do país, Herz era uma espécie de outsider da turminha da Czech New Wave. Em entrevistas ele costuma citar esse fato como algo primordial para que os filmes  fossem aprovados pelo governo comunista. Juraj Herz não era uma ovelha negra.

O trauma da Segunda Guerra Mundial é certamente um dos temas mais explorados da história do cinema, tanto em Hollywood quanto nas cinematografias mais distantes. Os filmes do novo cinema tchecoslovaco tratam a questão de uma forma um pouco diferente da maioria. Existe uma forte auto-ironia e a necessidade de não transformar aquele cenário tenebroso em catarses emocionais.

Entre o sonho e o pesadelo, o que fica evidente é o sentimento de culpa.  A impressão que passa nos filmes, é que o povo tchecoslovaco sentia-se tão vítima quanto assassino. E esse retrato da submissão aos nazistas não deixa de ser extremamente importante numa época em que a submissão aos soviéticos atingia proporções catastróficas. Era um trauma extremamente vivo no final da década de 60.

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