nova vlnà: jan němec e os encontros com o absurdo

Dos encontros surge o absurdo no universo de Jan Němec. Entre os principais cineastas da Czech New Wave, foi – ao lado de Věra Chytilová – certamente aquele que levou seu cinema a um caminho mais radical. Ele fala: “O diretor precisa criar seu próprio mundo… um mundo independente da realidade, como ela se apresenta. Os pintores criaram seus mundos, os compositores também. Mas só poucos cineastas alcançaram esse objetivo: certamente Chaplin, certamente Bresson e certamente Buñuel”. O mundo de Němec é estruturado em cima de encontros.

Em Diamantes da Noite, de 1964, temos o encontro de dois jovens fugitivos com velhos nazistas. Já em A Festa e os Convidados, de 1966, há o encontro entre um grupo de pessoas e seres estranhos que promovem um baquete. Nos três episódios de Martíres do Amor, de 1967, uma série de encontros – imaginários ou não – pontuam a narrativa. São eles que fornecem a chave para o absurdo.

A Festa e os Convidados é o mais emblemático dos três. A própria roteirista e esposa de Němec, Ester Krumbachová (que também trabalhou com Věra Chytilová em As Pequenas Margaridas e Fruto do Paraíso e dirigiu o raríssimo Killing The Devil em 1970) cita o nome do dramaturgo do absurdo Eugène Ionesco como a principal referência. No início, vemos um grupo de pessoas de meia idade bem vestidas na fartura de um piquenique na floresta. De repente, há o encontro com sujeitos estranhos. Primeiro o grupo é pateticamente ameaçado – obrigado a ficar dentro de um círculo delimitado por pedrinhas no chão. Depois surge o anfitrião, um velho mais simpático que  os convida para um banquete. O filme é uma das obras mais desconcertantes da década de 60.

The Party and The Guests

A relação com a obra de Ionesco é evidente. Há uma série de diálogos incompletos que remetem às conversas imaginárias de As Cadeiras, de 1952. A própria passividade com que o grupo de pessoas se submete àquela realidade traz um parentesco com o clássico do dramaturgo romeno Os Rinocerontes, de 1960. No entanto, há uma diferença primordial. Enquanto Ionesco costumava levar o absurdo ao clímax, muitas vezes em ultrajantes cenas de morte, o filme de Němec busca exatamente o contrário. Em todo momento há pistas falsas de que algo incrível vai acontecer. O anti-clímax do desfecho é altamente sugestivo.

Imediatamente após a invasão soviética na Tchecoslováquia, em 1968, A Festa e os Convidados foi “banido para sempre”. Os comunistas russos perceberam o alto teor subversivo da obra. Os homens que ameaçam o grupo de pessoas se assemelham bastante à polícia secreta comunista. Algumas falas do anfitrião do banquete, inclusive, foram tiradas de propagandas do partido. O próprio banquete, que tem pouquíssima comida, é um contraponto à fartura do início. Essa nova realidade que eles aceitam passivamente fica ainda mais próxima da realidade comunista do Leste Europeu quando um dos personagens resolve abandonar e fugir pela floresta, uma metáfora clara à quantidade enorme de pessoas que fugiam daqueles países.

Essa tendência ao absurdo para narrar a realidade conturbada daquele período é algo que navega por diversos filmes da Czech New Wave (e pela própria nova literatura tchecoslovaca daquele período). Não por acaso, a obra de Franz Kafka, que nasceu em Praga, só foi traduzida para o tcheco na década de 60. Durante o exílio, em 1975, Němec chegou a filmar uma versão em curta-metragem de A Metamorfose.

Martyrs of LoveMartíres do Amor também investe no absurdo, mas abraça um lirismo mais surrealista. Os três episódios apresentam jovens solitários, um deles o cineasta inglês Lindsay Anderson, que procuram novas realidades no encontro com outras pessoas. A importância da música é enorme, encaminha todos os três filmes pelas nuances do free-jazz, da música pop, a tradicional, a militar… É um filme praticamente sem diálogos, mas com bastante som. O destaque é o último episódio, A Aventura do Órfão Rudolf, de uma leveza poética singular. Němec define sua obra: “o mundo das três histórias é uma evocação da atmosfera de vários filmes – as comédias clássicas do cinema mudo, das histórias sentimentais, as comédias sociais… Poderia até ter um subtítulo, Das Reminiscências de um Cinéfilo”.

Diamonds of The NightTambém há pouquíssimos diálogos em Diamantes da Noite. Mas dessa vez não há música, muito menos leveza. É um filme angustiado, também alimentado pelo imaginário surrealista, incluindo uma citação clara às formigas de Buñuel. Se em Martíres do Amor é a música que administra as histórias, aqui são os ruídos que falam grosso, desde os passos desesperados na floresta, à chuva purificadora, além dos assustadores tiros e palmas nazistas. Notável também a cena em que o desesperado protagonista imagina matar uma mulher diversas vezes. Ele está fugindo de velhos nazistas que correm pela floresta com espingardas e cachorros. O encontro é fatal.

Depois de 1968, Jan Němec se concentrou em registrar mais um encontro, dessa vez dos tanques soviéticos com a poesia da Primavera de Praga, em seu documentário Oratório a Praga. Também foi fatal. Por causa do filme, teve sua promissora carreira dentro da Tchecoslováquia vetada por mais de vinte anos.

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Nota: os depoimentos de Jan Němec foram pesquisados no livro The Czechoslovak New Wave, de Peter Hames.
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