o transcendental

Só mesmo uma mulher como Agnès Varda para conseguir fazer de um momento extremamente banal aos olhos masculinos, um acontecimento transcendental de um filme: o ato de experimentar artefatos em uma loja de roupas. Boa parte dos cineastas faria desse momento da protagonista de Cléo das 5 às 7 (1962) um mero exercício de futilidade. Agnès Varda, que sempre retrata as mulheres de uma forma nada usual, logicamente não fez. Cléo tem o universo inteiro nos chapéus que a encanta e a câmera de Varda segue girando, quase como um carrossel silencioso que busca a imagem orgulhosa de Cléo entre vidros e espelhos. Mais que filmar, Varda parece abraçar a personagem. Curioso que a grande crítica de Truffaut ao longa anterior da belga, La Pointe Courte, de 1954, era exatamente a falta de tato na mise-en-scène. Ao contrário dos nomes mais populares da Nouvelle Vague, Varda não era cinéfila, mas em Cléo das 5 às 7 dá uma aula de mise-en-scène, o que dizer do momento em que os músicos chegam na casa da protagonista para ensaiar. Michel Legrand em pessoa, o gênio da mise-en-musique, começa a entortar Cléo, depois puxa uma valsinha e o laço entre o que filma e o que está sendo filmado é incrível. Varda tem total domínio da situação e, ainda por cima, completa a sequência com o êxtase de Cléo cantando todas as suas lágrimas. Decupagem extremamente cuidadosa sem que a espontaniedade da cena se perca, muito pelo contrário. Para completar, Cléo das 5 às 7 termina às 6 e 30. Os últimos trinta minutos ficam por nossa conta.

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