o movimento

La Pointe Courte

É tão emblemático que exista uma sensação de constante movimento em La Pointe Courte, o primeiro longa-metragem de Agnès Varda, de 1954. Já nas primeiras cenas, há o movimento da câmera que introduz a cidade passeando de forma curiosa pelos ambientes externos e internos. Ao longo do filme, também vemos o movimento contínuo de diversos personagens que, invariavelmente, estão caminhando pela paisagem da cidade mediterrânea. Agnès Varda, por sinal, valoriza muito a entrada dos personagens em quadro.

Esse deslocamento que o filme faz questão de aguçar não deixa de ser um fator simbólico. Diz muito da personalidade irrequieta da renovação do cinema francês que a cineasta belga antecipou. E o mais interessante de La Pointe Courte é que ele faz exatamente o movimento entre a referência do Neo-Realismo Italiano e o arrojo da Nouvelle Vague. Foi um percurso praticamente obrigatório para a geração que estourou nos anos 60, principalmente Truffaut e Godard. Da paternidade de Rossellini à ruptura de certas influências, como fez o próprio Godard – que chegou a travar vários debates com o cineasta italiano na década de 60.

La Pointe Courte lembra de cara um clássico de outro cineasta do Neo-Realismo:  A Terra Treme,  Luchino Visconti de 1948. Há um pequeno povoado que vive da pesca, há um filme feito com os próprios habitantes daquele mundo. Os “homens da esquina” de Zavattini e seus problemas do dia-a-dia. Mas Varda coloca um elemento estranho ali, um casal em crise que passa um dia de sol estourado andando e conversando.

É exatamente na forma como Varda constroi essa ficção dentro de um ambiente extremamente documental que o germe da Nouvelle Vague parece surgir. O diálogo do casal, pontuado por uma música dissonante, enquandramentos e travellings inventivos,  é elaborado de uma forma extremamente poética. Varda tem uma enorme preocupação com o ritmo arrastado das falas, das pausas e da construção das imagens.

Quem absorveu muito de La Pointe Courte foi o montador do filme, mr. Alain Resnais. É notável a influência do casal de Varda, que conversa e se desloca, no casal de Resnais em Hiroshima Mon Amour, assim como a referência dos travellings que desbravam ambientes em O Ano Passado Em Marienbad. A necessidade do movimento – partindo dos travellings pela cidade, dos pés dos personagens pelas ruas, da estética do Neo-Realismo para a invenção da Nouvelle Vague – diz muito do que foi aquele momento do cinema francês. E da própria carreira de Varda, uma das cineastas mais difíceis de ser imobilizada.

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