nova vlnà: as imagens de věra

O que realmente me impressiona no cinema tchecoslovaco da década de 60 é a facilidade que aquele pessoal tinha para produzir imagens extremamente lúdicas. E tudo tão artesanal. Sobre a invenção, o nome de Věra Chytilová não pode deixar de ser o primeiro da lista. Em seu seu cinema, uma cena simples de uma jovem noiva correndo na chuva em seu enigmático episódio de Pérolas das Profundezas, ou também a cena do trem em movimento (e várias outras) de As Pequenas Margaridas, podem se transformar em algo mágico. A sua construção de imagens  é algo que agarra os olhos.

pearls of the deep
pearls of the deep
as pequenas margaridas as pequenas margaridas

E o filme inevitável nesse sentido é o surreal e instigante Fruto do Paraíso, de 1969, terceiro longa-metragem da cineasta.  O filme confirma a parceria com seu marido, o fotógrafo genial Jaroslav Kucera (também responsável pela fotografia incrível de Um Dia, Um Gato, de Vojtech Jasný), e a roteirista Ester Krumbachová.  Se três anos antes o trio já havia feito mágica em As Pequenas Margaridas, Fruto do Paraíso caminha para o puro delírio.

Kucera falou a Mira e Antonin Liehn em 1974: “Eu sou terrivelmente interessado em explorar as possibilidades de produzir uma imagem cinematográfica que seja algo autônomo (…) Eu gostaria de conduzir um experimento em filme no nível atingido anos trás pela pintura moderna, pela poesia e a música”.

fruit of paradise fruit of paradise
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Em Fruto do Paraíso há uma sugestão de história, muitos símbolos e imagens fortes. A introdução, que cita trechos bíblicos sobre a expulsão de Eva e Adão do paraíso, traz uma experiência de texturas e fusão de cores raramente igualada na história do cinema narrativo. A trama mistura inocência, sexo e morte. Um dos personagens lê num jornal que há um assassino de mulheres à solta. Enquanto isso, todos estão na areia, brincando de bola. Eva encontra uma chave, vai para a casa de Robert, um sujeito estranho que anda atrás de meninas nuas e parece ser o provável psicopata.

Enquanto a história de desenvolve à maneira de Věra, as cenas lúdicas se multiplicam, como aquela em que Eva sola na bateria sob o foco distorcido da lente grande angular. Também o desfecho, com o singelo rosto da protagonista oferecendo uma rosa para o marido. Uma montagem que muitas vezes sugere o ritmo da animação stop-motion e o constante borrado da fotografia dão a Fruto do Paraíso um aspecto onírico impressionante.

A profusão de cores e as experiências com a textura das imagens até lembram alguns filmes de Stan Brakhage, mas Věra brinca com esses elementos dentro de filmes essencialmente narrativos. Não se tratam de obras abstatas,  as imagens de Věra surgem como um momento de licença poética dentro de suas histórias.

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