nova vlnà: um dia, um gato

Um Dia, Um Gato, de 1963, não é um filme imediatamente associado à Czech New Wave, seu diretor Vojtech Jasný pertence a uma geração anterior a de Miloš Forman, Věra Chytilová, Ivan Passer e cia. No entanto, além de ter atraído bons olhos para a produção tchecoslovaca dos anos 60, Um Dia, Um Gato também possui muitos elementos explorados no novo cinema do país. O crítico Peter Hames, estudioso da filmografia do leste europeu, coloca Jasný e sua cultuada obra como um dos filmes pertencentes a “first wave” que preparou o terreno para a invasão dos rebentos mais radicais daquela década.

O filme introduz um discreto povoado sob os olhos atentos de um senhor que observa a tudo e a todos. Logo ele será convidado para posar de modelo na aula de arte das crianças. Durante a aula, ele conta a história de um gato que precisa usar óculos escuros, pois seu olhar tem o poder de colorir as pessoas. Antes que o diretor do colégio acabe com a imaginação e a baderna na sala de aula, um mágico e sua trupe entram na cidade trazendo exatamente o gato de óculos.

As cores que definem as pessoas são amarelo, para a infidelidade, o cinza, para os ladrões e larápios, o roxo, para os hipócritas, egoístas e mentirosos, e o vermelho é claro, para os apaixonados. No espetáculo noturno, os olhos do gato deixam a cidade inteira colorida. É a porta aberta para o êxtase imagético de Um Dia, Um Gato.

Vojtech Jasný fez dessa cena um marco do cinema tchecoslovaco. A duração e o significado do balé de corpos coloridos dos habitantes da cidade ultrapassam todos os limites do que é representável para a narrativa. Há em Um Dia, Um Gato, exatamente o desejo infantil  que Jean-François Lyotard teorizou em seu acinema. A criança acende o fósforo porque gosta “do movimento, das cores que mudam, das luzes que alcançam o acme de seu brilho, da morte do pedacinho de madeira, do sibilo”. O filme de Jasný alcança em cheio a pirotecnia definida por Lyotard. O fósforo não serve apenas para dar continudade ao processo de acender o fogão ou uma vela. Ele já vale por si. A cena em que o gato dá cor aos habitantes da cidade se sustenta sozinha.

E é preciso dar nome aos bois. Primeiro pelo animador Jiri Brdecka (a animação é uma grande tradição cinematográfica do país) que assinou o roteiro junto com Jasný. E o mais importante, o diretor de fotografia Jaroslav Kucera.  Ele ficou marcado como um dos grandes nomes por trás das câmeras da Czech New Wave, tendo trabalhado em filmes de Miloš Forman, Jan Němec e Věra Chytilová. As experiências visuais dos filmes de Věra, As Pequenas Margaridas (1966) e Fruit of Paradise (1969) são uma radicalização da estética desenvolvida por Kucera em Um Dia, Um Gato.

Voltando à história, o gato começa a ser perseguido. Ninguém quer ficar cinza, amarelo e roxo na frente da cidade inteira. O nefasto diretor do colégio e seus capangas conseguem raptá-lo e afastar o professor que deu início a tudo. Insatisfeitas, as crianças desaparecem e deixam todo mundo desesperado. O roteiro do filme parece antecipar muito do que aconteceu na Tchecoslováquia nos anos seguintes. Há uma trupe estrangeira que adentra um povoado bucólico, sem muita inspiração. E eles trazem cores, alegria e dança à cidade. Parece que estamos diante da Tchecoslováquia do Realismo Socialista recebendo toda a influência da contracultura ocidental que culminou na famosa Primavera de Praga em 1968. Os cinzas que caçaram o gato, por sua vez, representam muito bem os líderes soviéticos e seus tanques de guerra escurecendo as ruas de Praga. E as crianças, que literalmente fazem greve, projetam bem os estudantes que pararam as universidades e encararam os invasores.

Outra presença importante é a do comediante Jan Werich em dupla atuação, na pele do velho contador de histórias e do mágico. Werich fez parte do grupo surrealista Devětsil, o grande marco da vanguarda tchecoslovaca das décadas de 20 e 30. Em Um Dia, Um Gato, é simbólico o fato de ser ele quem traz a magia para a cidade. Primeiro contando a história na sala de aula, depois no papel do mágico. A referência do Devětsil é uma das maiores características da Czech New Wave. Além da influência estética, as próprias obras de autores ligados ao movimento renderam filmes cultuados como Capricious Summer, Marketa Lazarová e Valerie & Her Week of Wonders.

Simples e encantador, mágico e acessível, Um Dia, Um Gato é uma fábula cinematográfica contra o autoritarismo e a falta de inspiração, que diz muito do que foi o cinema e a problemática política da Tchecoslováquia na década de 60. Um filme de rebelião e invenção.

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4 respostas em “nova vlnà: um dia, um gato

  1. Oi! Não sei se tu conheces a obra de animação: Chromophobia – de Raoul Servais – 1965; justamente apresenta a idéia do exército chegando, invadindo, do totalitarismo que extirpa as cores de uma cidade. Acredito que ambas as obras caminham para o mesmo caminho que é a crítica social empregando como um dos elementos essenciais a questão da cor. Um abraço!

    • Nunca vi esse filme. Vou procurar! Pelo que você fala, realmente parece bem semelhante (ainda mais por ter sido feito na mesma época).

      O uso da cor em Um dia, um gato é bem emblemático mesmo.

      Abraço!

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