nova vlnà: jiří menzel e a impotência de uma nação

A frustração sexual é praticamente um símbolo do cinema produzido pelo  tcheco Jiří Menzel durante a década de sessenta. Em seus três principais longas, as situações envolvendo homens impotentes ou casais que não conseguem transar tomam conta das narrativas.

Na sua obra mais famosa, Trens Estreitamente Vigiados, de 1966, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, Menzel apresenta o jovem Milos prestes a entrar na vida adulta. É o seu primeiro dia de trabalho, que consiste em ficar vigiando os trens que passam por uma pequena estação. No decorrer do filme, percebe-se que o grande salto para a vida adulta não vem do trabalho, mas do sexo. E é problemático.

Milos está apaixonado, mas não consegue transar com a garota. Sofre de ejaculação precoce. Em uma das cenas memoráveis, ele tenta pedir ajuda a uma senhora experiente. Milos quer ser iniciado e, em tom cabisbaixo, lamenta: “se eu tenho que provar que sou um homem, é porque não sou um homem”. A senhora não aceita nada. A ironia é que a negativa é acompanhada pelos movimentos praticamente sexuais das mãos da velha no pescoço de um ganso. Por sinal, Trens Estreitamente Vigiados é um filme cheio de referências sexuais e símbolos fálicos.

Trens Estreitamente Vigiados (1966)

Trens Estreitamente Vigiados (1966)

O painel por trás dos traumas de Milos é a Segunda Guerra Mundial, a dominação nazista na Tchecoslováquia. Mas ele realmente só está preocupado com o fato de não poder provar para sua namorada que é um homem de verdade. Esse é o dilema do jovem.

Se em Trens Estreitamente Vigiados é um garoto que precisa desesperadamente se transformar em homem, há em Um Verão Caprichado, de 1968, a situação inversa; três homens feitos que não conseguem mais provar, sexualmente, que são homens.

Capricious SummerBaseado em um romance de Vladislav Vančura (uma das figuras-chave do surrealismo tcheco das décadas de 20 e 30) Um Verão Caprichado mostra o fracasso de um comerciante, um major aposentado e um padre na tentativa de transar com a linda ajudante de um mágico. Todos conseguem atrair a menina, mas nenhum consegue consumar o ato. A cena mais notável é a do comerciante que, escondido de sua mulher, passa uma madrugada inteira fazendo massagem na perna da insatisfeita jovem.

Mais do que filmar frustrações sexuais, Jiří Menzel filmava uma nação impotente. Um país que só conseguiu sua independência após o desmanche  do Império Austro-Húngaro em 1918 e que, pouco tempo depois, foi facilmente controlado pelos nazistas. E quando Menzel realizou seus filmes, a Tchecoslováquia era um dos fantoches soviéticos do leste europeu. O trauma sexual acaba sendo uma imagem de um país sem autonomia.

Esse sentimento de impotência política no período socialista é amplificado em Andorinhas por um Fio, de 1969. Ambientado nos primeiros anos de Stalinismo, o filme (baseado, assim como Trens Estreitamente Vigiados, na obra de Bohumil Hrabal) é uma crítica ácida à truculência do governo socialista na Tchecoslováquia. Os personagens são apresentados em um ferro-velho, local em que são forçados a trabalhar para apagar seu passado burguês. Há um filósofo que não quis “destruir a literatura ocidental corrompida”, um procurador que deixou o acusado exercer sua defesa, um músico que teve seu saxofone, instrumento “imperialista”, banido… É um filme extremamente corajoso.

E a frustração sexual continua. As mulheres vivem presas, seus belos e atraentes rostos são considerados “repugnantes, cheios de imperialismo” por uma professora socialista. “A besta fascista nunca dorme”, completa para as crianças enquanto as moças as encaram com sorrisos cheios de tesão.  O contato com os homens é raríssimo, um pequeno encontro de mãos já surge como um momento glorioso e excitante.

Skylarks on a String

Após a espetada na opressão socialista, quem acabou impotente foi o próprio Jiří Menzel, que com censura de Andorinhas por um Fio teve sua carreira cinematográfica abortada e ficou até 1974 sem fazer um longa-metragem, dedicando-se a espetáculos teatrais.

Cultuado em VHS piratas durante a década de 80 e só exibido nos cinemas em 1990,  Andorinhas por um Fio rendeu a Menzel o prêmio de melhor diretor no festival de Berlim daquele ano. Foi um momento simbólico. Fim do muro, fim de um socialismo moribundo na Tchecoslováquia e um prêmio importante para um diretor de um país que podia, enfim, respirar uma certa autonomia. E gozar em paz.

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