a saúde dos doentes de elia kazan

As entranhas familiares são um ponto de referência que percorre boa parte da obra de Elia Kazan, principalmente no seu período mais fértil e premiado, final dos anos 40 ao início dos 60.  Kazan, além de “dedo-duro de comunistas”, ficou conhecido por filmar seres atormentados, outsiders, revolucionários, enfant terribles e monstros da sociedade norte-americana como anti-semitismo e racismo. E sempre procurou a instituição familiar como uma cama para que essa quantidade enorme de temas delicados pudesse se esparramar.

Em A Luz é Para Todos, filme que deu o primeiro Oscar a Kazan em 1948, há um jornalista que pretende se passar por judeu para escrever uma reportagem sobre o anti-semitismo em Nova Iorque. E ele só consegue sentir na pele as agruras de ser judeu naquele período do pós-guerra quando a falsa origem começa a prejudicar sua família. Os atritos com a noiva, que manifesta um preconceito velado, e as crises do filho que passa a ser humilhado nas ruas, levam o jornalista ao desespero. O bem-estar da família também é prioridade em Pânico nas Ruas, de 1950, cujo plot gira em torno  de um médico que precisa correr atrás do tempo para eliminar os focos de uma peste que ninguém parece se preocupar. Antes que a trama ganhe qualquer proporção, o médico é apresentado como um bom pai de uma boa família. O filho pequeno que brinca no jardim e precisa de uma moedinha pra ir ao cinema, a esposa que quer um abraço forte e oferece um beijo em troca.

Mas nem sempre é a presença da família que encaminha as tramas dos filmes de Kazan. O próprio A Luz é Para Todos é introduzido com uma conversa entre o jornalista e seu filho, que pergunta sobre a mãe falecida. No entanto, essa ausência materna acaba sendo irrelevante, já que na cena seguinte vemos uma super-avó levando a criança para comprar brinquedos. Traumas não são alimentados ali. Eles existem nas três obras mais cultuadas da filmografia de Elia Kazan.

filho e pai em Vidas Amargas

A seqüência inicial de Vidas Amargas, filme de 1955, é emblemática. Uma senhora vestida de um verde tenebroso caminha apressada pela paisagem bucólica de uma pequena cidade. Subitamente, um jovem começa a persegui-la. Ao chegar em frente da casa da senhora, ele passa a atirar pedras na porta. O toque genial de Elia Kazan é a inversão dos papéis. Na cena, quem parece ameaçado não é a mulher perseguida, e sim o garoto vivido por James Dean. O aspecto amargo e pesado daquela mulher contrasta com a fragilidade do jovem perseguidor. Logo o filme vai revelar que aquela senhora é a mãe do rapaz, uma mãe que nunca existiu de fato. Essa ausência materna acaba pontuando a personalidade errante do garoto, que cultiva uma forte inveja do irmão bom moço e vive às turras com o religioso pai.

A ausência materna, e pode-se dizer feminina em geral, também recheia o melhor filme de Kazan, Sindicato de Ladrões, de 1954. Por mais que mulheres apareçam vez ou outra, tem-se a impressão que aquele é um mundo apenas de homens e pombos. Há, é claro, a presença de Edie Doyle, a loira angelical que deixa o personagem de Marlon Brando de quatro. Mas ela está claramente deslocada ali. Tirando Brando, todos a encaram com um olhar de vai embora.  Ele, um ex-boxeador meio sozinho no mundo, acaba adotando a garota e um padre como algo próximo de uma família. São eles que encaminham a sua decisão de delatar os bandidos que tomam conta do sindicato local de trabalhadores. O personagem de Brando só toma coragem depois que seu irmão mais velho, o sujeito que o introduziu naquela máfia, é assassinado. A morte do irmão simboliza o fim total do laço familiar com aquele sindicato.

Uma Rua Chamada PecadoO ápice da problemática familiar da obra de Kazan talvez esteja na relação entre as duas irmãs de Uma Rua Chamada Pecado. Ali, há todo aquele encontro entre amor, falsidade e competição que caracteriza uma legítima relação de família. Num primeiro momento, Stella (Kim Hunter) parece feliz com a chegada da irmã Blanche (Vivien Leigh). Minutos depois, as duas já declaram guerra. Na manhã seguinte, novamente as palavras de carinho. Mas Stella não pode revelar que está grávida. A cereja do bolo aparece quando Blanche começa a sentir uma forte atração pelo marido da irmã, o brutamontes Stanley Kowalski (novamente Marlon Brando). A relação de Blanche com o casal acaba saturando de vez a sua sanidade.

O cinema de Elia Kazan ajuda a mostrar que é nos círculos familiares, onde nada é permitido e tudo acontece, que a sociedade se expressa de forma mais limpa e sincera e, por isso mesmo, muitas vezes monstruosa. Como diria meu amigo João Harpa: pra que filmar um manicômio se você pode filmar uma família?

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