melancolia black

Apesar de ser associada imediatamente ao Black Power, boa parte dos filmes Blaxploitation carrega, mais do que qualquer coisa, um profundo sentimento de melancolia. Por mais que obras como Shaft, Foxy Brown, Super Fly e Black Caesar sejam recheadas de cenas de ação, sexo à vontade, trilhas sonoras espetaculares, entre outros aperitivos, o mote da maioria era exatamente os problemas dos guetos negros no início da – como definiu Tom Wolfe – década do eu.

Para os bairros negros dos Estados Unidos, a realidade da década de 70 estava um pouco distante da euforia raivosa dos anos anteriores. Todo o rebuliço revolucionário, primeiro com as palavras conciliadoras de Martin Luther King, depois com violências e radicalismos de Malcolm X e dos Panteras Negras, se enfraqueceu. No final dos anos sessenta o lema das ruas era: a revolução está chegando, é hora de pegar sua arma. Poucos anos depois, as armas ainda estavam lá, mas as revoluções se distanciavam cada vez mais.

Em termos gerais, os anos 70 são pródigos em melancolia. Foi uma década-ressaca. E na problemática negra norte-americana o buraco era ainda mais embaixo. Os guetos foram infestados por drogas pesadas pelo próprio governo norte-americano, que tentava acabar com a mobilização política que os grandes líderes negros estavam buscando. Tanto que boa parte dos roteiros dos Blaxploitation envolve tráfico de drogas pesadas. O interesse nisso tudo? A desunião black, outro plot comum dos filmes do gênero. Em Cotton Comes To Harlem, por exemplo, a periferia negra está esfacelada. Há os policiais, há os junkies, há os religiosos charlatões, as prostitutas… É cada um por si.

Mas é no primordial Sweet Sweetback Badaaasss Song que o desespero negro fica ainda mais evidente. A produção independente de Melvin Van Peebles (que produziu, dirigiu, atuou, cozinhou e comeu) é um dos filmes mais melancólicos da década de 70. O protagonista, um negão bem dotado, sex machine, passa boa parte do filme correndo, sem dizer uma palavra, com a amargura estampada na cara. Se foi a raiva que motivou Van Peebles a realizá-lo (a idéia era fazer um filme que trouxesse os reais problemas dos negros), é a angústia que tomou conta do resultado final. Mesmo em momentos de diversão, como na trepada antológica com uma integrante dos Hell’s Angels, o clima é denso. Sweet Sweetback não está ali, sua alma parece longe daquele “pequeno” problema (uma eterna fuga da polícia). O seu problema é outro. Isso fica evidente na cena em que ele troca a sua própria segurança pela segurança de uma criança: “ele é o futuro”. Sweet Sweetback continua correndo até o fim.

É claro que existem filmes mais alegóricos ou otimistas como as três versões de Shaft, o terrir Blacula, o tenebroso Black Gestapo, o hilário Black Shampoo, entre outros. Ali os negros estão no comando, boa parte dos brancos é submissa ou idiotizada. Mas não são filmes que trazem a questão primordial do gueto naquela década. Nesses filmes, pode-se dizer, há um real exploitation da cultura e estética black. Shaft, inclusive, foi bolado como um filme protagonizado por brancos. Só depois do sucesso de Sweetback que surgiu a idéia de um elenco negro.

A real melancolia black dos anos setenta está mesmo em Sweetback, Super Fly, Foxy Brown, Coffy, The Mack… Todos repletos de protagonistas envolvidos com os problemas barra pesada dos bairros negros. O gênero Blaxploitation conseguiu captar, mais do que um registro simbólico do Black Power travestido em filmes de ação e sacanagem, esse iminente esfacelamento dos guetos. Por trás de um decote da Pam Grier, por trás de uma fungada de Ron O’Neal, por trás de uma trepada de Melvin Van Peebles, há uma tristeza que seguiu com o tempo pelas esquinas negras. Como disse Chuck D. do Public Enemy: “nós somos resultado do ódio”.

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