o show de horrores de nine

09/02/2010 por Leonardo Bomfim

Nine é um show de horrores.

O primeiro horror: pra que fazer um musical sem nenhuma música que presta? O que é aquela canção sobre o cinema italiano que a Kate Hudson canta? Fora a melodia pobre, o sujeito que escreveu a letra nunca deve ter visto um filme italiano.

O segundo: ter uma dúzia de mulheres lindas num filme que pretensamente homenageia (ou cita, ou se inspira, ou sei lá o que) o cinema italiano e deixar todas sem a mínima graça. Logo o cinema italiano, reduto de cineastas que sabiam como ninguém filmar uma mulher. A cena em que a personagem de Nicole Kidman canta, numa alusão ao emblemático momento de Anita Ekberg em A Doce Vida, é constrangedora de tão broxante.

Terceiro horror: o que é o cineasta vivido por Daniel Day-Lewis? Tentaram criar uma caricatura lamentável do Godard. Mas a coisa fica realmente preta quando num momento de falta de inspiração, ele coloca a mão no queixo e olha para o nada. Horror.

Horror número quatro: mesmo que o espectador nunca tenha visto nada do Fellini – em quem o filme pretensamente se inspira –, Nine continua sendo uma das piores obras já feitas. Colocado à sombra da obra do italiano então, a coisa se torna dramática. De qualquer forma, Nine é tão ruim que se estivesse à sombra de um filme como Plan 9 from Outer Space, de Ed Wood, o resultado ainda seria triste.

O último horror: é extremamente desagradável quando uma arte se refere a si mesma da forma como Nine faz. Se alguém buscar o cinema através do filme de Rob Marshall (sim, ainda não tinha citado o nome do culpado), encontrará algo extremamente superficial, dispensável. Até pelas citações que o filme também faz, é impossível não lembrar da obra máxima auto-referencial do cinema: O Desprezo, de Jean-Luc Godard, cujo palco também é a Cinecittà. Em determinada cena do clássico godardiano, há a famosa previsão de Louis Lumière pintada na sala de projeção: “o cinema é uma arte sem futuro”. Não seria estranho se Lumière tivesse chegado a essa conclusão após uma sessão de Nine.

coisa boa de se ouvir

07/02/2010 por Leonardo Bomfim

Lutei por anos contra a ideia de que rock e arte popular são apenas paixão e moda, sem nenhuma relação com o raciocínio e a análise, e contra a ideia de que, se você pensa muito, há algo de errado com você”.

Brian Eno em entrevista publicada no Observer. Trechos da entrevista estão na edição desse domingo da Folha de São Paulo. Obrigatório.

o sublime

03/02/2010 por Leonardo Bomfim

Duas aulas de arranjo que só a soul music poderia dar: Oh How I’d Miss You, com Marvin Gaye & Tammi Terrell e My Deceiving Heart, com The Impressions.

A primeira é a canção de despedida da obra-prima United, o primeiro disco do “casal” mais legal da Motown, lançado em 1967. O que acho mais forte nela é o encontro da melancolia com uma vibração impactante. Afinal, é uma música sobre saudade. E saudade amorosa é isso, um misto de frio na barriga, euforia e tristeza. Hal Davis produziu a canção e conseguiu colocar exatamente esse sentimento no arranjo. Isso é uma característica forte da Motown, os arranjos dialogam diretamente com a alma da canção. Coisa de um mundo em que a sensibilidade sobra.

Oh How I’d Miss You começa festiva, os sopros parecem introduzir uma explosão de alegria, mas Tammi anuncia: seu coração está apaixonado e seu amor não está lá. E há vários detalhes que fazem a música crescer, do diálogo entre o vibrafone e o piano elétrico soando como um cravo (ou é um cravo mesmo com sonoridade sintetizada) antes das estrofes, ao coro discreto que vai mantendo a expectativa para o refrão. A base musical dos Funk Brothers é precisa, redonda como sempre.

É claro, há também Marvin Gaye e Tammi Terrell. Acho que de todos os duetos entre homens e mulheres do universo soul, foi a dupla mais intensa. Ao contrário de muitos discos do gênero em que existe uma certa frieza, uma impressão de que cada artista gravou sua parte em um canto do planeta, Marvin e Tammi parecem cantar abraçados, e isso faz uma diferença tremenda. A bela harmonia entre as duas vozes no refrão comprova isso.

Agora My Deceiving Heart, pequena jóia do gênio Curtis Mayfield, lançada no seu último álbum ao lado dos Impressions, o The Young Mod’s Forgotten Story, de 1969. Tudo começa com um piano que deixa no ar um sugestão blues, mas Curtis e sua voz singular entra direto com a faca no coração: “I could die”. Pronto, que frase para começar uma canção! E a balada segue firme até o refrão, um orgulho de refrão, com coro, sopros, algo que já antecipa muita coisa da carreira solo de Curtis. Mas o que é matador, discretamente matador, é o coro suave – fazendo a mesma harmonia das cordas – após o refrão. É um pequeno detalhe que faz toda a diferença, coisas que mestres do arranjo sabem sacar par colocar um algo mais na canção. Na segunda estrofe, as cordas entram forte, completando a melodia, nunca repetindo, levando-a para outros caminhos. Importante citar o nome do arranjador desse disco dos Impressions: Donny Hathaway, que no mesmo ano lançava seu primeiro single. Nos anos 70, se tornou protagonista decisivo da música negra.

Oh How I’d Miss You e My Deceiving Heart são duas canções que sintetizam muito bem a riqueza da soul music. Além disso, ressaltam outro ponto importante: como as gravações de soul, mesmo se tratando de baladas, são extremamente pesadas.

otis redding – discografia

31/01/2010 por Leonardo Bomfim

Para finalizar o mês dedicado aos mágicos, comento aqui a discografia do maior de todos. O que realmente me encanta na música de Otis Redding é que há ali – ao contrário de outros nomes da música negra – uma magia extremamente humana. Não se trata daquela voz que você não consegue imaginar de onde vem, como se a garganta do sujeito fosse revestida de mármore. Otis Redding está no Olimpo daqueles cantores em que é possível ouvir a garganta rasgando, a respiração ofegante, a voz falhar, daqueles que enchem a alma de corpo. Tamanha intensidade acabou rendendo o inevitável: pra muita gente Otis é sinônimo de soul music. Não tenho como discordar, sua meteórica carreira já fala por si. Comento aqui apenas os discos lançados em vida por Otis. Sobre os álbuns póstumos e os anos seguintes a sua trágica morte em 1967, pretendo escrever mais para frente.

Pain in My Heart (1964) 

Jim Stewart, o lendário chefão da Stax, sempre comentou que não viu muita graça nas primeiras gravações do novato Otis, calcadas no rock ‘n’ roll. Tudo que ele não queria era um novo Little Richard. Foi quando Otis tirou da cartola a balada magistral These Arms of Mine. Stewart logo percebeu que havia algo grande e diferente ali. Realmente, o primeiro disco de Otis acerta o pulo nas baladas arrasa-quarteirão. Na queda de braço, Sam Cooke bateu Little Richard (em praticamente todos os discos seguintes há a presença de Cooke). É emocionante ouvir um novato Otis rasgando a voz como nunca mais fez em That’s What My Heart Needs.

Top: These Arms of Mine, Pain in My Heart e That’s What My Heart Needs.

The Great Otis Redding Sings Soul Ballads (1965)

Num disco repleto de baladas inspiradas – como já adianta o nome – quem chama os holofotes é a sensacional Mr. Pitful, soul bem marcado que acabou se tornando uma referência sonora da Stax (o riff de sopros, por exemplo, foi extremamente replicado). A música também revela outro ponto importante: a parceria entre Otis Redding e o guitarrista do Booker T. & The M.G.’s Steve Cropper. Um disco que está um passo além do seu antecessor por ter um equilíbrio maior entre o repertório mais lento e o mais agitado.

Top: Mr. Pitful, That’s How Strong My Love Is e Your One and Only One

Otis Blue (1965)

O texto na contracapa diz: “Soul não é algo que pode ser imaginado; ou você tem, ou não tem. Otis Redding tem”. Apesar da intenção publicitária, a frase é extremamente verdadeira. E Otis Blue cai bem como a grande obra soul de todos os tempos. Marca um ápice criativo, nas composições, e visceral, nas interpretações. Também é o disco mais bem gravado de sua carreira. Tenho a impressão de o Booker T. & The M.G’s estar tocando do meu lado. E Al Jackson, Jr. mostra o porquê (o que é a bateria em Shake?!) de ter sido considerado por muita gente o melhor baterista de todos os tempos.

Top: impossível.

The Soul Album (1966)

Outro disco sublime. Não é tão comentado quanto Otis Blue por não ter tantos sucessos, mas tudo aqui é extremamente bonito. Tem uma leveza de interpretação e arranjos que nenhum outro disco de Otis tem. Dessa vez, quem brilha ao lado de Otis é o guitarrista Steve Cropper e seus dedilhados precisos em sua Fender Telecaster.

Top: Good To Me, It’s Growing e Cigarrettes and Coffees.

Complete & Unbelievable: Otis Redding Dictionary of Soul (1966)

É um clássico de Otis, mas considero um pouco abaixo dos dois discos anteriores. Tudo bem, a presença de Try a Little Tenderness já garante as estrelas. Depois que Otis a cantou, é como se todas as outras versões (algumas ótimas por sinal) fossem varridas do mapa. A música é de Otis. Outro furto memorável foi Day Tripper, retirada de Abbey Road diretamente para os calorosos estúdios de Memphis. Assim como Satisfaction no ano anterior, o hit britânico ficou com a cara da Stax.

Top: Day Tripper, Try a Little Tenderness e My Lover’s Prayer

King & Queen (1967)

Discos de duetos entre cantores e cantoras foram algo recorrente dentro do universo soul. Otis Redding e Carla Thomas não decepcionam o Sul negro e fazem do disco um momento histórico da Stax. Com repertório cheio de standards da música black, passando por Sam Cooke, Atlantic e Motown, King & Queen garante qualquer bom momento. E não tem como não se emocionar ao ouvir New Year’s Resolution.

Top: New Year’s Resolution, Let Me Be Good To You e Tramp

Live in Europe (1967)

Se a performance aqui não é tão impressionante quanto a no Monterey Pop Festival, realizado no mesmo ano, Live in Europe é um ótimo registro de uma combinação fatal. Otis Redding + Booker T. & The M.G.’s em cima de um palco era covardia. Ao lado do êxito em Monterey, a tour da Stax pela Europa que rendeu esse disco foi a grande catapulta para o estrondoso sucesso mundial de Otis naquele ano. Basta ouvir para saber o motivo.

Top: Shake, Fa-Fa-Fa-Fa-Fa (Sad Song) e Try a Little Tenderness

o vivo e o opaco

23/01/2010 por Leonardo Bomfim

Fiz a besteira de encarar Lula – O Filho do Brasil depois de Ervas Daninhas de Alain Resnais. Porque a obra de Fábio Barreto, ao contrário do filme francês, não trata de seres humanos, mas de monolitos. Há a clara intenção de reforçar, a todo momento, um decisivo traço psicológico de cada personagem. Todas as cenas com o pai de Lula servem para mostrar que ele é um alcóolatra canalha; todas as cenas com a mãe existem para colocar em evidência a força solitária daquela mulher; todas as cenas de Lula, do nascimento ao sindicalismo, estão ali para mostrar que ele é um sujeito sensível e instintivo, apesar da falta de condições de vida. Lula – O Filho do Brasil é um festival de redundâncias. São mais de duas horas que poderiam ser resumidas em cinco minutos.

A figura do Lula merecia algo melhor. Uma história tão cheia de ambiguidades não deveria ser retratada da forma infantil como foi. O pior é que nem consegue arrancar aquela emoção barata (mesmo repleto de casamentos e funerais). Também não me parece um filme atraente para o grande público. É opaco.

Claro que a ausência de brilho ficou ainda mais pesada após Ervas Daninhas, que também não parece imediatamente atraente para o grande público. Mas aqui a razão é outra. É todo costurado em cima das ambiguidades do ser humano, de uma riqueza que muitas vezes é recusada quando se está acomodado numa poltrona às escuras, de imagens que pedem um olhar de compaixão e outro de estranhamento. É vivo.

um mágico a mais

20/01/2010 por Leonardo Bomfim

Janeiro é o mês dos mágicos aqui. Agora um apressado que foi embora junto com Otis Redding em 1967: Carl Cunningham. E foi ao lado do gênio do soul que o baterista deixou seus melhores momentos em shows e gravações para a televisão. Em disco há Soul Finger, ótimo primeiro registro dos Bar-Kays – a banda de Cunningham que passou a acompanhar Otis a partir de 1966. Mas impressionante mesmo é a participação do baterista numa edição do Ready Steady Go com os súditos Eric Burdon e Chris Farlowe e o Rei Otis Redding. Cunningham era claramente um discípulo de Al Jackson Jr., do Booker T. & The M.G.’s, o baterista mais preciso da soul music. Seu estilo, no entanto, além de reunir a classe de Jackson, passeava pelo imprevisível. As características viradas secas de caixa que antecipam os refrões ganham uma agressividade ímpar, o bumbo também bate absurdamente forte na marcação do tempo. Basta ouvir a sensacional versão de Hold On I’m Coming entoada por Burdon ou ainda o medley com Can’t Turn You Loose, Shake e Land of 1000 Dances, quando a bateria toma a dianteira, acelera o andamento e arremessa todo mundo pra frente.

Infelizmente Carl Cunningham não teve tempo para aprimorar ainda mais o seu estilo – morreu no mesmo avião teimoso de Otis Redding em dezembro de 1967. Mesmo tendo poucos registros, dá pra colocá-lo como concorrente forte a grande baterista de todos os tempos.

outro momento mágico

12/01/2010 por Leonardo Bomfim

Valerio Zurlini, 1972. A Primeira Noite de Tranquilidade. Na cena, Alain Delon passa mais de três minutos embasbacado com a presença maravilhosa de Sonia Petrovna, que primeiro se entrega a You Gotta Have Love In Your Heart do combo Supremes & Four Tops e depois dança coladinha ao som de Domani è un’ Altro Giorno de Ornella Vanoni.

um momento mágico

10/01/2010 por Leonardo Bomfim

Da série momentos mágicos: o solo de trompete de Freddie Hubbard em Maiden Voyage.

top 10 cinema 2009

02/01/2010 por Leonardo Bomfim

10 – A Troca (Clint Eastwood)

Sofre do mesmo problema de Milk, de Gus Van Sant, quando abandona a tensão da narrativa para seguir contando os fatos de uma história verídica. Apesar disso, tem seus grandes momentos. É um filme que consegue dançar bem entre o drama e o policial.

09 – A Erva do Rato (Julio Bressane)

Inferior ao Cleópatra, A Erva do Rato se dá muito bem no descompromisso de alguns momentos. A impressão é que Bressane estava se divertindo muito durante o filme. Também reforça o talento do cineasta para trabalhar histórias com a cumplicidade entre duas pessoas.

08 – Avatar (James Cameron)

Hoje é um filme quatro estrelas. Em dez anos, dificilmente será. O espetáculo em 3D é fascinante, isso é indiscutível, mas é provável que o filme se torne uma mera curiosidade, um exercício das novas tecnologias de um determinado momento do cinema. A invenção visual sublime acaba perdendo o fôlego por causa de um roteiro que repete temas já esgotados (há muito tempo) no cinema de ficção-científica.

07 – Deixa Ela Entrar (Thomas Alfredson)

Aqui, pelo contrário, um filme que cresce com as revisões. Tenho uma profunda admiração pelas obras que, nesses tempos de choque a quem puder, caminham pela sutileza. O desfecho na piscina é uma cena para se guardar com carinho.

06 – Entre os Muros da Escola (Laurent Cantent)

Também me deliciam filmes bem resolvidos em pequenos espaços. A sala de aula é praticamente o único cenário. E aí a montagem toma a dianteira. Ela é o muro, na primeira hora raramente vemos o professor da escola no mesmo plano dos alunos. Temos aqui um belo exemplo do uso da montagem como recurso narrativo.

05 – Inimigos Públicos (Michael Mann)

Outra vez a montagem dá o tom. Maravilhosa a diferença entre os momentos do Dillinger bandido e do Dillinger amante. No crime, a câmera é agressiva, a montagem acelerada; no amor, tudo é mais leve, harmonioso. Bom quando um filme – e não apenas seu protagonista – também parece sentir.

04 – Moscou (Eduardo Coutinho)

Mais um filme de poesia que um documentário. Ao contrário de Jogo de Cena, um filme de tese, conceitual, aqui temos um vôo livre. de Tchekov a Antonio Marcos, primoroso.

03 – Amantes (James Gray)

Amantes mostra que, muitas vezes, amor é essa necessidade louca de turbulências. Duas marcantes cenas no terraço, completamente diferentes, para colocar James Gray como um dos grandes cineastas da atualidade.

02 - Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino)

Mais uma vez chupando de tudo (de Robert Aldrich a Russ Meyer), Tarantino manda a verossimilhança para o inferno ao colocar todo o alto escalão nazista dentro de um pequeno cinema em Paris. Provavelmente a mais inteligente homenagem ao cinema do diretor, colocando-o como figura central do filme.

01 - Gran Torino (Clint Eastwood)

O melhor filme do ano. Engraçado e melancólico, sutil e surpreendente. Ótimo ter um filme desses num ano em que a ficção rasa como pretexto para tratados sociológicos (Distrito 9) é saudada por muita gente como obra-prima. Aqui temos um exemplo perfeito de filme que pode ser visto com olhos de caça e de caçador. Se o espectador quiser tirar uma lição sobre certas particularidades dos Estados Unidos, pode; se quiser “apenas” assistir um filmaço sobre intolerância e amizade, também pode. Pelos dois olhares é uma tremenda obra-prima.

era uma vez… a revolução

28/12/2009 por Leonardo Bomfim

São poucos os filmes que refletem tão intensamente a sua própria época como Quando Explode a Vingança, rebento setentista de Sergio Leone. Debruçando-se sobre a Revolução Mexicana do início do século XX, o cineasta italiano consegue expor de forma brilhante a ressaca revolucionária que marcou os primeiros anos da década de 1970, quando utopias políticas e emblemas da esquerda, eletrificados em 1968, começavam a desmoronar.

Não é à toa que Leone introduz Quando Explode a Vingança com a clássica citação de Mao Tsé-Tung – “a revolução não é um convite para jantar (…), mas um ato de violência” –, que esteve entre muitos dentes durante a década de 1960. O que fica evidente nas quase três horas de puro cinema que sucedem a frase maoísta, é que, no fim, restou apenas a violência. Como diz um dos protagonistas a um companheiro de militância: “eu só acredito na dinamite”.

O autor da frase é John Mallory, inusitado personagem irlandês do western de Leone. Mallory é um integrante do IRA que precisou fugir do Reino Unido e acabou se unindo à revolução no México. A presença desse personagem também não é mero acaso. Havia uma enorme efervescência política em torno do grupo que buscava a unificação das Irlandas. Rebelião violentíssima que culminou no marcante Domingo Sangrento em 1972, quando quatorze pessoas foram mortas pelo Exército Britânico na Irlanda do Norte. De Mao Tsé-Tung ao IRA, Sergio Leone estava realmente preocupado em refletir sobre sua realidade.

O que pontua a trama do filme é o encontro entre o irlandês e Juan Miranda, um bandido que usa toda a família para atacar diligências no meio do deserto. Enganado por Mallory, Miranda acaba protagonizando a Revolução Mexicana, da qual ele desdenha – “enquanto os pobres morrem, os ricos pensam e comem, depois quando vencem, viram generais”. Mallory, em contrapartida, é pura desilusão. Suas lembranças dos tempos de militância na Irlanda (primorosos os flashbacks embalados pelas harmonias de Ennio Morricone) são extremamente doloridas.

Estamos diante de três personagens e suas ambiguidades: um bandido, um ativista e a revolução. É sublime que Quando Explode a Vingança vai se tornando cada vez mais amargo no passar das horas. O vigor do início dá lugar à falta de perspectivas de Miranda, que tem sua família chacinada, e Mallory, que tem sua causa traída. Palavras certeiras são de Inácio Araújo ao relembrar um dos títulos brasileiros do western (Era Uma Vez… a Revolução): “é profético porque associa a idéia de revolução a um conto de fadas, cuja existência só pode acontecer na imaginação”.

Nesse sentido, Quando Explode a Vingança forma um par importante com o também amargo Tudo Vai Bem, de Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin, outro filme-ressaca dos anos 1970. Por mais que sejam opostos, o espetáculo de Leone e o anti-espetáculo de Godard e Gorin – primorosos em sua urgência – são filmes irmãos. Feitos no mesmo período (1971 e 1972) , trazem as primeiras faíscas de um pensamento que dominou a ‘Década do Eu’, como caprichosamente definiu Tom Wolfe.

É interessante lembrar que a mesma citação de Mao que abre o filme de Leone, é dita por Anne Wiazemsky em A Chinesa, obra de Godard que antecipou muita coisa de Maio de 1968.  A diferença é que, enquanto no filme de 1967, as palavras maoístas parecem conclamar a revolução; em 1971, as mesmas palavras dissertam sobre o fim do sonho revolucionário. Da mesma forma que Mallory declara sua fé na dinamite, muitos grupos políticos (como a própria revitalização violenta do IRA no final dos anos 1960) rumaram para o terrorismo puro.

Assim como o filme de Leone, Tudo Vai Bem também se concentra em dois protagonistas: um casal em crise. Jacques é um cineasta da Nouvelle Vague que após Maio de 1968 desistiu do cinema e voltou-se para a publicidade. Susan é uma jornalista que se autodefine como uma correspondente que não corresponde com nada. Godard é os dois personagens em crise; o filme é uma espécie de epitáfio do seu coletivo de cinema militante Grupo Dziga Vertov. O discurso sufocado do cineasta aparece principalmente nos dois enormes monólogos em que os personagens expõem suas angústias. Desde Pierrot Le Fou Godard não realizava um filme tão desesperado.

O desespero respira forte principalmente na frase de Susan: “uma correspondente que não corresponde com nada”. É a melhor definição para o artista Godard naquele momento, cineasta que no auge de sua trajetória desviou a sua própria ruptura cinematográfica para entrar de cabeça numa ruptura, acima de tudo, política. O valor dos filmes-ensaio do Grupo Dziga Vertov é inestimável, mas o preço que Godard pagou foi alto. O cineasta mais relevante da década se tornou um radical enfurecido, quase uma excentricidade.

Podemos visualizar na postura do francês no decorrer dos anos 1970 a frase emblemática de John Mallory, com uma pequena alteração: “eu só acredito no cinema”. Em Godard o cinema sempre aparece em primeiro plano. Mais do que a ressaca revolucionária, Tudo Vai Bem investiga a ressaca de um cinema revolucionário, como frisou Christian Zimmer, a impossibilidade de um cinema naquele contexto. Nesse sentido, tanto o filme de Godard quanto o de Leone também dialogam em suas conclusões: um enorme ponto de interrogação.